O CALVÁRIO DAS LETRAS –

“Help! De tanto esperar já nem sei mais pedir socorro em português”. Assim falou um conhecido intelectual da paróquia que habitamos. Viu ao derredor, tudo abandonado, sucateado. Disse um amigo que pedira um catálogo do patrimônio cultural da cidade para um grupo catarinense que visitava Natal. Em João Pessoa, Recife e Fortaleza, a agenda dos turistas fora inteiramente cumprida. A expectativa era de que na cidade dos Reis Magos não seria diferente. Alguém do Rio Grande do Norte, numa das capitais antes visitadas, forneceu informações sobre alguns pontos culturais a serem visitados. Deve ter sido um guia turístico desinformado da realidade em que se encontram os bens culturais móveis e imóveis do Estado.

Apesar dos esforços dos órgãos de promoção cultural no enfrentamento dos problemas, tudo esbarra na falta de classe e de vontade política. Como explicar à sociedade e aos turistas por que o Memorial Câmara Cascudo ainda está interditado? O museu do Guaporé em Ceará-Mirim está semidestruído. O cadáver do escritor Nilo Pereira está se contorcendo no túmulo. O prédio centenário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte urge por uma restauração, pois lá está guardada toda a história do Estado desde o período colonial. O Empório dos Guarapes, em Macaíba, patrimônio imóvel do Estado, continua desprezado e invadido. A praça Augusto Severo na Ribeira é outro exemplo de isolamento que chega a atingir o teatro Alberto Maranhão, por osmose.

A cultura potiguar está a merecer o surgimento de vozes que despertem e unifiquem o pensamento e a ação, das entidades públicas e privadas, em defesa do patrimônio histórico, artístico, bibliográfico. Aliás, tudo isso pertence com mais legitimidade ao povo do que às próprias instituições.

Lembrei-me de Guimarães Rosa quando disse que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. No passo rápido e mágico das emendas parlamentares as restaurações poderão surgir. No debate legislativo, a Casa de José Augusto Bezerra de Medeiros, justamente com o Palácio Felipe Camarão, alí, pertinho, poderão ser a maternidade dos projetos, lua nova de ações e discussões, ouvidas, igualmente, as instituições da cultura, do comércio, da indústria e dos serviços. Não construo alegorias. Busco claridades. Visibilidades.

A decadência do bairro da Ribeira é uma fratura exposta do empobrecimento de Natal. Certa noite, vindo da Rampa, cruzei as ruas Frei Miguelinho, Tavares de Lyra e Doutor Barata. Um calafrio se apossou do corpo. Me assustei, e confesso: tive medo. Veio-me à mente uma ressurreição de imagens dos anos cinquenta, com vultos de almas taladas a ferro e a fogo. Nostalgia, silêncio, tudo deserto. A Ribeira, à noite, é um cemitério de poucos vivos e muitos mortos.

É a assombração que já está subindo a ladeira da Junqueira Ayres (Câmara Cascudo) para chegar a Cidade Alta. Se a Assembleia Legislativa e a Prefeitura saírem dali, o bairro fecha pra balanço. Não existe projeto, à olho nú, de revitalização económica, social, cultural para nenhum desses logradouros. Ninguém constrói nada!

No Nordeste, Natal ocupa a lanterna, atrás de Fortaleza, Recife, João Pessoa e Maceió. E o Rio Grande do Norte também. O mal é que as emendas parlamentares continuarão sendo fatores de erro de cálculo no serviço público brasileiro. A Ribeira e a Cidade Alta permanecem dignas de compadecimento pelos seus mistérios circundantes. Precisam ser revisitadas, restituídas e que as transformações do tempo não sejam pelo silêncio nem pelo abandono.

 

 

 

Valério Mesquita – Escritor, Mesquita.valerio@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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