Os cientistas dividirão o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões) concedido pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, da Suécia.
A pesquisa laureada descobriu como reações químicas podem favorecer com que as moléculas a assumam uma determinada forma e ajudou a explicar a homoquiralidade (propriedade em que todas as moléculas quirais de possuírem uma imagem espelhada).
Revelar como uma reação se comporta por dentro ajuda químicos a ajustar processos para obter só a versão útil de uma molécula.
➡️Isso significa remédios com menos impurezas e menor risco de efeitos indesejados, e o mesmo princípio orienta a produção de aromas, fragrâncias e defensivos agrícolas.
Algumas moléculas, como os aminoácidos, podem existir em duas formas que são imagens espelhadas uma da outra.
É como acontece com as mãos: a mão direita e a esquerda têm os mesmos componentes, mas uma não pode ser perfeitamente sobreposta à outra.
➡️Na química, essa característica é chamada de quiralidade. Os seres vivos são, em sua maioria, homoquirais: embora os aminoácidos existam em duas versões, apenas uma delas é encontrada nas proteínas das nossas células. A outra é rara na natureza.
Durante muito tempo, os químicos não sabiam explicar como essa preferência por apenas uma das duas formas poderia surgir.
O problema ficava ainda mais evidente nos experimentos de laboratório. Quando uma reação química era capaz de produzir as duas versões espelhadas de uma molécula, normalmente eram obtidas quantidades iguais das duas. Ou seja, não havia uma preferência por um dos lados.
Essa questão é importante porque, quando os químicos desenvolvem moléculas que vão interagir com organismos vivos — como medicamentos — as duas versões de uma mesma molécula podem ter efeitos diferentes. Por isso, conseguir produzir predominantemente uma delas é fundamental.
Foi nesse problema que Henri B. Kagan e Kenso Soai fizeram suas descobertas.
Em 1986, Henri Kagan descobriu uma nova maneira de manipular reações químicas. Com isso, conseguiu produzir um excesso maior de uma das formas espelhadas de uma molécula do que se acreditava ser possível até então.
A descoberta mostrou que era possível quebrar, em uma reação química, a proporção equilibrada entre as duas formas.
Mas ainda faltava entender como uma reação poderia chegar ao ponto de produzir apenas uma delas.
O passo seguinte veio com Kenso Soai. Em 1995, ele descreveu uma reação química que tinha potencial para ser homoquiral.
A ideia envolvia um fenômeno chamado autocatálise, em que o próprio produto de uma reação ajuda a acelerar a formação de mais daquele produto.
Isso cria um mecanismo capaz de amplificar uma diferença inicialmente muito pequena.
Imagine, por exemplo, que uma reação produza uma quantidade ligeiramente maior de uma das duas formas espelhadas. Se essa forma puder ajudar a produzir mais moléculas iguais a ela, o desequilíbrio pode aumentar progressivamente: quanto mais moléculas de um tipo são formadas, mais a própria reação favorece a produção daquele tipo.
Foi esse princípio que permitiu avançar na compreensão de como uma pequena assimetria química pode se transformar em uma preferência quase completa por um dos lados.
Em 2003, Soai finalmente conseguiu realizar uma reação na qual apenas uma das duas formas espelhadas possíveis era formada.
Segundo o material do Nobel, além da própria vida, ninguém havia conseguido realizar esse feito anteriormente.
As descobertas de Kagan e Soai, portanto, ajudaram a solucionar um mistério químico com mais de um século: como a homoquiralidade pode surgir espontaneamente.
O trabalho também mostra como uma diferença inicialmente pequena pode ser ampliada por uma reação química até resultar na predominância de uma única forma molecular.
É esse fenômeno que ajuda a explicar uma característica fundamental da química da vida: embora muitas moléculas possam existir em duas versões espelhadas, os organismos vivos utilizam predominantemente apenas uma delas.
O Nobel de Química de 2025 reconheceu o cientista japonês Susumu Kitagawa, o britânico Richard Robson e Omar M. Yaghi, da Jordâni pelo desenvolvimento das estruturas metal-orgânicas, conhecidas como MOFs (metal-organic frameworks, em inglês) – materiais ultraporosos capazes de capturar, armazenar e separar moléculas em nível atômico.
➡️Cada estrutura é composta por íons metálicos (como cobre, zinco ou cobalto) ligados a longas cadeias orgânicas que formam um cristal com inúmeros poros microscópicos.
Esses “buracos” são tão pequenos e organizados que permitem capturar gases, armazenar energia ou separar moléculas específicas — uma espécie de “engenharia de espaços vazios” dentro da química.
Os MOFs são tão porosos que alguns gramas do material têm área interna equivalente a um campo de futebol. Isso significa que eles conseguem absorver quantidades imensas de gás ou vapor em comparação com outros materiais.
A pesquisa começou ainda nos anos 1980, quando Richard Robson percebeu que poderia usar a atração natural entre íons metálicos e moléculas orgânicas para criar cristais com cavidades internas.
Mais tarde, Susumu Kitagawa, da Universidade de Kyoto, mostrou que esses materiais podiam ser estáveis e flexíveis — capazes de absorver e liberar gases sem se desmanchar.
Já Omar Yaghi, da Universidade da Califórnia em Berkeley, desenvolveu versões ultrarresistentes, como o MOF-5, que permanece intacto mesmo a 300 °C e pode ser moldado conforme a necessidade do uso.
Embora ainda sejam estudados principalmente em laboratório, os MOFs já têm aplicações reais e promissoras como a captura de CO₂ em fábricas e usinas, a purificação da água e a produção de chips e semicondutores.
Desde 1901, o Nobel de Química já premiou quase 200 cientistas, entre eles Marie Curie, Linus Pauling e Ahmed Zewail.
O mais jovem laureado foi Frédéric Joliot, premiado em 1935 aos 35 anos, por suas pesquisas sobre radioatividade.
Já o mais velho foi John B. Goodenough, que recebeu o Nobel em 2019, aos 97 anos, pelas baterias de íon-lítio — tecnologia presente em celulares, notebooks e carros elétricos.
Marie Curie é a única pessoa a ganhar dois Nobéis em áreas diferentes: Física (1903) e Química (1911)
A láurea em Medicina é sempre a primeira a ser anunciada. Os prêmios em Física, Química, Literatura e Paz são entregues ao longo da semana; já a láurea em Economia será divulgada na próxima segunda (12). Veja o cronograma:
Veja, abaixo, perguntas e respostas sobre o prêmio.
A láurea foi criada pelo químico e empresário Alfred Nobel. Inventor da dinamite em 1867, o sueco doou a maior parte de sua fortuna em testamento para a criação de prêmios de física, química, medicina, literatura e paz (o prêmio de economia foi criado anos mais tarde).
O documento dizia que os prêmios deveriam ser concedidos “àqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício à humanidade”.
Contudo, hoje em dia, conforme explica Juleen Zierath, membro do Instituto Karolinska, o júri do Nobel de Medicina, essa regra não é mais tão levada à risca.
“Você pode ter feito essa descoberta em um estágio muito inicial de sua carreira de pesquisa, ou pode ter feito essa descoberta em um estágio muito avançado de sua carreira de pesquisador”, ressalta a pesquisadora.
Todos os anos, o Comitê do Nobel envia um pedido de nomeação para membros da comunidade científica.
Isso significa que alguns candidatos elegíveis recebem um convite especial para enviar seus nomes. Sem esse convite, nenhum postulante pode concorrer ao prêmio.
“Você não pode se nomear, mas membros de comunidades científicas, reitores de faculdades de medicina, ex-laureados com o Prêmio Nobel e outros que trabalham no ramo científico mais amplo e que receberam esse pedido podem fazer uma indicação”, diz Zierath.
Até três pessoas podem compartilhar um Prêmio Nobel, ou uma organização pode ganhar a láurea da Paz.
A Fundação Nobel, responsável por realizar os desejos do seu fundador, ressalta que essa regra está descrita no testamento de Alfred Nobel.
“Em nenhum caso o valor do prêmio pode ser dividido entre mais de três pessoas”, destaca um trecho do documento. Alguns pesquisadores, porém, criticam essa escolha e afirmam que as descobertas científicas de hoje em dia são muito mais coletivas: um trabalho de vários pesquisadores.
Não, um Prêmio Nobel não pode ser concedido postumamente.
Apesar, disso, a Fundação ressalta que, desde 1974, se o destinatário do prêmio falecer após o anúncio, a láurea ainda poderá ser concedida.
Sobre o limite de idade, o prêmio também não tem uma regra a respeito.
“O que eu diria é que, na maioria das vezes, levamos muitos anos até que o campo científico reconheça que a descoberta que você fez é uma distinção que deveria ser considerada para umPrêmio Nobel. Então, às vezes você tem que ser bastante paciente”, ressalta Zierath.
Fonte: G1
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