NAS NUVENS –

Tenho a ligeira impressão que alguns dos meus leitores não incorporam bem o que eu tento dizer ao longo de alguns dos meus textos. Faz mal não. Questão talvez só de competência ou tato de minha parte. Ou mesmo da maneira desusada, um tanto insólita, ao descrever o que a vista cansada pareceria ver e com a qual o resto do meu corpo interage. Afinal, é difícil falar sobre as imagens que vislumbro nas nuvens que, à minha maneira, modifico de propósito a cada instante. Ou sobre estátuas imaginárias de pedra, sólidas, definitivas, impossíveis de esculturar uma vez mais. Também as construídas de argila, moldáveis, que eu desconstruo essência e forma como e quando quero. Sem falar nas de carne e osso, reais, palpáveis que chegam do nada, ao acaso, e logo me habitam e me fazem prisioneiro delas. Tenho uma visão um tanto surreal das coisas que me cercam. Um tanto poética, sim. Mas não consigo evitar. Reais ou não, o fato é que existe algo misterioso nelas. Em função disto vivo extraordinárias aventuras que se eu contasse vocês não acreditariam. Certa vez uma delas veio do mar. Na forma de um barco encantado, refletindo o arco-íris, cuja forma lembrava um búzio. Dava também a impressão de emitir uma tênue luz de luar em pleno dia. Caminhava na beira da praia quando o vi. Tive a sensação que os que estavam ao redor nada perceberam. Embarquei nele e o timoneiro me levou pra um lugar que eu não sabia que existia. O lugar exato onde o sol nasce e se põe. Sabe como é lá? Um grande porto dourado. Nele um imenso jardim. Cheio de árvores e flores. Os canteiros delimitados por nuvens. Paramos por lá por muito tempo. Na volta, o timoneiro me falou que tínhamos ficado apenas alguns segundos. Talvez pura imaginação dele. Talvez porque o tempo por lá é infinitamente maior do que o daqui, pensei. Uma outra vez, fui às nuvens em plena areia na praia. Me apareceu sem ter nem pra quê, uma mulher real. Com uma raquete na mão. Queimada de sol, suada. Cabelos cor de abóbora, curtinhos, indo até um pouquinho atrás da nuca. O que ela vestia, me pareceu, cintilava como luzes de árvores de Natal. O que conversamos não lembro bem. Talvez só ficamos a olhar um pro outro. Ou então ficamos só ouvindo a força da voz do vento arrebentando vagas e derramando espuma sobre os arrecifes. Não me lembro bem. O fato é que o acontecido virou uma história de amor. Há muitas pessoas que não levam a sério e não acreditam nessas coisas. Por isso não vejo razão pra contar pra elas. Fica só entre nós dois. A face onírica delas. Viu?

José DelfinoMédico, poeta e músico
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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