Diógenes da Cunha Lima

                                  Sem afeto não há salvação. Este o elo entre o homem e a paisagem, entre o menino e o rio, entre o adulto e a árvore, entre o que é e o que foi, que dá ao que somos substância (em Nova Cruz aprendi a palavra mais forte e adequada: sustância). Subo a Ladeira do Sol. Na Praia dos Artistas vi uma onda, um instante de onda, e imagino que no mundo só Leopoldo Nelson a poderia perenizar.

                                  De cima, vejo paisagem, a Avenida Getúlio Vargas, heráldica, mas em forçada convivência democrática com a Rua do Motor. O olhar se estira por sobre a linha de arrecifes que aumenta a distância do chão seco à medida que vai chegando à Fortaleza dos Reis Magos. Piscinas naturais. Depois o rio, o Rio Grande, o Potengi amado pelos olhos e pelo coração, não pelo cheiro, poluição. O mangue, os verdes, morumbi diriam os primeiros habitantes.

                                  A brisa marinha nos faz carícias a ponto de acreditarmos na frase que fiz, a pedido de Narcélio, enquanto do D.E.R., para a Via Costeira: AQUI TODO DIA É DIA DE NATAL. A brisa traz cheiros e é presente ofertada pelos Magos. Lembrança do nome que virou destino da Cidade, Natal.

                                  Alonga-se a vista para colher a Redinha, casario, tendo por traz o silêncio quase branco das dunas, visão de marinha saída de uma tela de Doriam Gray.

                                  Deixo o pensamento se aquietar com a paisagem. Mas, naturalmente, sem esforço, voltam lembranças queridas: estou quase a conversar com o meu mítico Newton Navarro, lírico e onírico; a exuberância litúrgica de João Medeiros Filho; as histórias de Antonio Soares e de sua mágica luneta lunar; o teimoso Dante de Melo Lima; Neto Guimarães que fez lembrança, poesia e lá ainda casou Ivan Maciel; José Aguinaldo, personagem de romance, com a filha pilotando avião para casar com o poeta Sanderson Negreiros; quantos, quantos, indo até Vicente Serejo, da mais recente floração Redinheira.

                                  Já não me chamo à realidade trabalhosa e o pensamento se põe a vadiar. Tudo de longe é bonito. E o mar nos sussurra eternidade. O efêmero, mesmo lindo como um momento de onda, as pessoas que amamos e estão distantes ou que se foram, as frases ótimas que se perderam, os poemas não lidos nem ouvidos, esta vontade de, no meio do trabalho sobre coisas miúdas, querer fazer coisas grandes, e permanentes, e que influenciem, e que produzam o afeto.

                                  Qualquer dia vou me aposentar de vez. E não mais farei coisas miúdas. Aposentar lembra ficar nos aposentos. E o meu aposento será o mais alto que puder para o exercício de novas funções porque serei, então, apenas, um vigia do Oceano.

Diógenes da Cunha Lima – Poeta, escritor, advogado e presidente da Academia de Letras do RN

Ponto de Vista

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