ME CONTE COMO FOI SEU DIA – Ana Luíza Rabelo

 

ME CONTE COMO FOI SEU DIA –

Há algum tempo, as famílias se reuniam durante as refeições e outras ocasiões e compartilhavam fatos do seu cotidiano. Então, algo interessante acontecia: cada um dos presentes, ou pelo menos a maior parte deles, realmente se interessava pelos episódios vividos pelos seus parentes e amigos. Hoje, sem críticas ou mágoas à tecnologia, as histórias transbordam pela internet, os momentos são compartilhados, seguidos e curtidos por gente que a gente às vezes mal conhece.

Uma vida completamente escancarada a estranhos conhecidos e pseudo amigos, que, de fato, não têm interesse real naquilo que nos acontece, afora uma frívola curiosidade ou uma lamentável inveja.

Gestos de caridade, provas de amor, viagens, músicas, filmes e livros… A lista é interminável e, muitas vezes, desinteressante para o leitor.

Comunicamo-nos em excesso, sem fazê-lo de verdade, e, ao final, os esparsos comentários e as poucas curtidas nos deixam uma enorme sensação de vazio.

Qual seria a forma mais correta para responder questões como: “minha avó faleceu”; “estou limpando o quarto”… e por aí vai? Quem dentre nós realmente conversa com sua mãe, pai, irmãos e amigos sem a ajuda dos mecanismos outrora futuristas e hodiernamente superestimados?

Eu, que fui criada e educada através do “old fashion way”, para usar a nova linguagem, tenho algumas dificuldades para somar ao meu arsenal de tecnologia tantas outras que surgem momento a momento.

Não vamos, porém, crucificar antecipadamente os nossos maravilhosamente rápidos meios de conhecimento, comunicação, informação e, por que não dizer, (re)encontros.

Sem os computadores, ainda estaríamos fazendo nossos trabalhos e pesquisas em papel pautado, pesquisando através de enciclopédias Barsa (com edição de pelo menos dez anos atrás) ou através de longas e complicadas pesquisas na biblioteca Câmara Cascudo (porque naquele tempo era a melhor).

Hoje, o conhecimento é mundial e graças a ele muitas outras bibliotecas (físicas e virtuais) surgiram.

Apesar de toda essa falácia, o meu objetivo é saber como foi o seu dia, sem fotos, sem filtros e sem postagem de célebres frases e belas paisagens.

Você dormiu bem? O trabalho e/ou a escola foram proveitosos? Como anda a vida? Como está de saúde?

Pode ser sincero! De nada adianta desnudar o corpo para o ciberespaço enquanto escondemos realmente aquilo que sentimos para quem realmente se interessa!

Que bom que vimos quase em tempo real aquele enorme furo jornalístico, foi muito instrutivo ler aquele artigo, ficou maravilhosa a foto de biquíni minha ou daquela atriz importante.

Mas e os sentimentos? Como estamos lidando com eles? O estresse está grande? O seu relacionamento com as pessoas ao seu redor está bem? Você está bem? Está tudo joia mesmo ou são apenas boas imagens jogadas na net?

Como responder, como corresponder a tudo isto sem ver, sem conhecer o outro? Como podemos ajudar, dar, sem saber exatamente o que o outro necessita? O que falar ao invés de dar um abraço apertado, um ombro e um par de ouvidos para um desabafo?

Toda tecnologia nos trouxe o mundo, ele cabe na palma de cada um de nós. Eu já conheci o Louvre, já visitei o museu de Madame Tussauds, conheci o Oceano Pacífico, fui para a Disneylândia, visitei pubs ingleses, sem sair de casa, sem levantar da cadeira.

Mas estava sozinha, não havia ninguém para compartilhar tantas alegrias, tanto conhecimento. Ninguém para segurar a minha mão enquanto assisti a aurora boreal, ninguém tirou minhas fotos quando visitei Stonehenge.

A tecnologia deve ser usada, sim, com certeza, para a expansão do conhecimento, para evitar a alienação de uma sociedade, para combater preconceitos, mas não deve nunca nos deixar com a sensação de estar só em um mundo tão rico e tão vasto.

Para evitar estes sentimentos, precisamos de alguém que nos conheça em “carne e osso” e que não nos delete com a facilidade de um apertar de dedos.

Só existe um tipo de amor. Costumamos classificá-lo, subdividi-lo, mas amor é amor, e amor quer saber e poder compartilhar dos seus dias.

 

 

Ana Luíza Rabelo Spenceradvogada (rabelospencer@ymail.com)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

 

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