LOCKDOWN –
Uma diarista que nos presta serviço semanal, perguntou-me: Seu Narcelio, o que danado é esse tal de “loquidal”? É algum remédio para o coronavírus? Medindo as palavras, tentei explicar a estimada criatura: Não, Mariana. O danado do “loquidal” é um termo em inglês que significa bloqueio total, isolamento rígido, em resumo: ficar trancado em casa para não ser contaminado pelo coronavírus.
Qual a razão da pergunta? – questionei-a. Nada de mais! Achei o nome bonito e queria sugerir ao meu filho para botar no neto que vai nascer, porque serve para os dois sexos, né? Mas depois da explicação do senhor, eu prefiro ficar com Galvus, se for homem ou Nebilet, se for mulher – respondeu Mariana na bucha.
E onde você conseguiu os danados desses dois nomes, mulher? – perguntei-lhe, entre surpreso e curioso. E ela, de pronto: Tirei das caixas de remédios vazias que o senhor pediu para eu jogar no lixo. De todos eles, esses dois, foram os que eu mais gostei! – calei-me… Dizer o que?
É bom ressaltar que a mania de pais batizar as crias com denominações esdrúxulas não é de agora, advém de priscas eras. O motivo? Entre outros, o desejo de fugir do rol de nomes comuns encontrados no cotidiano de cartórios de registros civis de pessoas, e assim diferenciar seus filhos dos demais.
Ainda lembro o espanto que senti quando, recém-formado, trabalhando como engenheiro numa unidade rodoviária pública, me deparei com a ficha funcional de um servidor, pai de três filhos homens. Na sua simplicidade e ignorância, o operador de máquinas pesadas havia batizado os rebentos, assim: Fulano Huber Warco da Silva, Beltrano Caterpillar da Silva e Sicrano Michigan da Silva, respectivamente.
Isso mesmo, os estigmatizara com as marcas de empresas fabricantes de equipamentos pesados utilizados na construção civil, notadamente na construção de rodovias e na mineração. As inocentes criaturas, se ainda vivas e com os mesmos nomes, são hoje propagandistas ingênuos de tratores, motoniveladoras e de pás carregadeiras de multinacionais famosas.
Mas não fica por aí. Ao longo dos anos, sempre me interessei em identificar até onde chegava o absurdo de determinados pais em homenagear ídolos, ocorrências, datas e outros devaneios interiorizados, concretizando-os nos costados de filhos impotentes, porquanto crianças diante de pias batismais.
Acho improvável que Antonio Buceta Agudim, Chevrolet da Silva Ford, Éter Sulfúrico Amazonino, Ilegível Inilegível, José Casou de Calças Curtas, Lança Perfume Rodometálico, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Padre Filho do Espírito Santo, Restos Mortais de Catarina, Pália Pélia Pólia Púlia dos …. não tenham sofrido intimidações diversas nas suas infâncias pela originalidade dos nomes.
Fico imaginando se Mariana – minha auxiliar citada acima – fizesse a tal pergunta ao dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, e o quanto de original seria a sua resposta. De Ariano conhecia-se o horror pelo estrangeirismo incutido ao português, especialmente o inglês, por ele considerado uma língua feia, pobre, ruim e nojenta.
O professor, poeta e ensaísta, comumente citava o romancista espanhol Miguel de Cervantes, por conta desta sua afirmação: O português é a língua mais sonora e musical do mundo. Ah, Mariana, poucas e boas você ouviria.
Saudade das inteligentes aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. Tranquilo “loquidal” a todos!
José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro e Escritor
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Já se pode esperar futuramente surgir nomes de pessoas como Covid, Quarentena, Cloroquina, etc.
Agora os fabricantes da cerveja Corona não devem estar muito contentes neste momento.