A FEROCIDADE –
“Quando o homem mata a fera, é esporte. Quando a fera mata o homem, é ferocidade.”
(Bernard Shaw)
Certa vez, apareceu em Gubbio, aterrorizando os moradores, um enorme lobo, animal feroz com fama de predador, que devorava animais e pessoas. Os habitantes da cidade trancaram-se em suas casas, apavorados, temendo o ataque desse animal sanguinário.
O lobo não era somente grande e forte. Era, acima de tudo, um animal que matava, não só pela sede de sangue, como pelo instinto de destruição. Rasgava suas vítimas a dentadas, e odiava todos os seres vivos. Chegaram a pensar que ele fosse o Demônio disfarçado de lobo.
Ao saber dos ataques do lobo aos animais e moradores daquela região, Francisco, um religioso que ali morava, procurou uma solução para o problema, com a ajuda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muito destemido, decidiu ir ter com o lobo, para tentar transformar sua fúria em amor.
Ao ouvir os boatos de que os moradores da cidade já estavam se organizando para matar o temido lobo sanguinário, Francisco encheu-se de piedade pelo animal. Não era em vão, que Francisco tinha o dom de se comunicar com os animais, além de outras virtudes.
Então, Francisco saiu ao encontro do lobo.
Afastando os moradores que lhe barravam o caminho, e fazendo um largo Sinal da Cruz, Francisco saiu para o campo, pondo toda a sua confiança no Senhor.
Mesmo contrariando suas ordens, alguns moradores, à distância, o acompanharam. Duvidando do êxito da missão de Francisco, amedrontados, retardavam o caminhar, deixando-se ficar para trás. Até que Francisco se viu só, e sua vontade de encontrar o lobo aumentou ainda mais.
De longe, todos viram quando o lobo avançava ao encontro de Francisco, com a boca muito aberta e vermelha.
Ao ver a fera se aproximando, Francisco fez o Sinal da Cruz e a chamou, dizendo sem receio:
– Vinde até mim, irmão Lobo! Tenho tristes queixas de vossas ações e estou aqui para enumerá-las e ordenar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não façais nenhum mal, nem a mim, nem a outro homem qualquer, pois muitas lágrimas já tendes provocado, para vergonha vossa e minha.
Para espanto de todos, o terrível lobo sanguinário, tão logo Francisco fez o Sinal da Cruz, baixou a cabeça e fechou a boca, detendo-se e dobrando os joelhos.
Atendendo à ordem de Francisco, o lobo aproximou-se, mansamente, inofensivo e tímido, como qualquer cordeiro, e deitou-se aos seus pés. E Francisco, em tom de mágoa, e não de censura, falou:
“Irmão Lobo, tendes feito grande mal aos moradores desta terra, matando e devorando as criaturas de Deus, sem a sua soberana permissão. E não só tendes matado e devorado animais, mas tendes ousado matar homens, feitos à imagem do Senhor, merecendo, por isso, a forca, como qualquer ladrão ou traiçoeiro assassino.
Todos gritam e falam contra vós, e todos vos são contrários. Mas é a minha vontade, irmão Lobo, estabelecer a paz entre vós e eles.
Assim, de agora em diante, não mais fareis mal a criaturas do Senhor e todos vos perdoarão; nem homens nem cães vos tornarão a perseguir.
Eu vos prometo cuidar de que vos seja dado de comer, enquanto viverdes. pelos homens desta terra, de modo que não sofrais fome, porque bem sei que foi a fome a causa dos vossos crimes. Mas, visto que eu obtenho este favor em nosso proveito, exijo, irmão Lobo, que me prometais nunca mais tornar a fazer mal a nenhum homem ou animal.”
E tendo assim proposto e prometido, Francisco recebeu da fera, agora inofensiva, a prova de que respeitaria essa vontade. Baixando ainda mais a cabeça, o lobo lambeu-lhe os pés. Sério e emocionado, Francisco lhe ofereceu a mão muito magra e branca, na qual o lobo colocou a pata direita, sem qualquer receio, dando-lhe, assim, conforme pôde, uma garantia da sua boa-fé. Então, Francisco, com os olhos nublados pelas lágrimas e a voz apertada pelos soluços, acrescentou:
-Irmão Lobo…Meu irmão Lobo…eu vos convido, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, a que me sigais, sem receio, a concluir esta paz, em nome de Deus.
E o lobo, obediente, o seguiu, como um cordeiro, até o centro da cidade, onde os cidadãos, estupefatos, os viram chegar, lado a lado.
A notícia se espalhou depressa e todos, homens e mulheres, grandes e pequenos, novos e velhos, se apinharam na praça para ver, com os próprios olhos, a paz celebrada entre Francisco e o lobo, em nome dos moradores da cidade. E estando ali, todos reunidos, Francisco levantou-se e começou a pregar-lhes. dizendo:
“Por vossos pecados, permitiu Deus várias coisas más e pestes, e maiores perigos ainda, como as chamas do inferno, que duram eternamente para os condenados, e que são piores do que a ferocidade do lobo – que só pode matar o corpo…E muito mais do que a boca de um animal tão pequeno, devíeis temer a boca do inferno!”
E tendo pregado, Francisco explicou, enfim, a que vinha:
“Escutai, irmãos:
O irmão Lobo prometeu-me e deu-me um penhor da sua boa-fé, de que viverá em paz convosco e nunca mais vos ofenderá em qualquer coisa que seja; e deveis prometer que, de hoje em diante, lhe dareis tudo o que for preciso, que eu ficarei fiador pelo irmão Lobo e fiador também pela vossa promessa, e assim todos terão a Paz.
Então, o povo, a uma só voz entusiasmada, prometeu dar ao lobo todo o necessário para o seu grande estômago. E Francisco, diante de todos eles, perguntou ao lobo:
-E vós, irmão Lobo, prometeis guardar a paz e não tornar a molestar homens, animais e quaisquer outras criaturas?
O lobo se ajoelhou diante de Francisco e abaixou a cabeça, com movimentos de submissão do corpo, cauda e orelhas, em sinal de que cumpriria todas as suas promessas. E depois, levantando a pata direita, colocou-a na mão de Francisco, para regozijo e admiração da multidão que a tudo assistia. E todos começaram a gritar aos céus, louvando a Deus, por lhes haver mandado Francisco, que, por suas grandes virtudes, os tinha livrado de tão terrível fera.
Assim, viveu o lobo dois anos em Gubbio, entrando mansamente em todas as casas, indo de porta em porta, nenhum mal fazendo a ninguém. E era muito bem alimentado pelo povo, podendo andar daqui para ali, não havendo cão que contra ele ladrasse.
Mas essa paz só durou dois anos, pois o povo de Gubbio esqueceu todas as promessas, na paz e segurança em que agora a cidade vivia. Não tardaram a surgir os que comentavam com amargor o trato feito, dizendo que o lobo era um indolente e exigente pedinchão, e que era disparate inconcebível estar a encher-lhe a barriga de finos pedaços de carne. E, crescendo a revolta, um belo dia, com paus, pedras e gritos de raiva, acompanhados de latidos de cães contra ele açulados, o lobo foi enxotado de casa em casa, de rua em rua, até fora da cidade, e também perseguido a tiros. Só salvou a pele, graças à ligeireza da fuga e à proximidade da mata e das escarpas pedregosas, por onde subiu sem fôlego, sangrando em diversas partes do corpo.
Horrorizado com a traição, o lobo se perguntava:
-Como pudera acontecer aquilo? Que fizera ele? Onde e quando quebrara a sua solene promessa?
Francisco, agora, vivia distante de Gubbio, levando a sua palavra suave de fraternidade e paz, para benefício de outros. Não tinha o lobo, portanto, a quem apresentar o seu protesto, a quem reclamar os seus direitos e, muito menos, onde arranjar comida. Porque o seu estômago não mudara! Era grande e exigente e, agora, depois de tantos sustos e correrias, pedia reforço. Estava faminto…
Outra vez, a cidade se arrepiou de medo; outra vez, os rebanhos foram dizimados, os cidadãos assaltados e as lágrimas voltaram a descer pelas faces de muitos habitantes, pela perda da sua melhor ovelha ou, maior desgraça ainda, pela morte de algum parente.
O lobo era outra vez a fera insaciável, o flagelo de toda uma região.
E todos, sem discussões, decidiram que a culpa cabia a Francisco, a quem logo recorreram. Com o coração partido, Francisco convocou o lobo para censurá-lo e obrigá-lo a penitenciar-se perante os cidadãos, além de ter que dar plenas explicações da sua enorme culpa.
A uma considerável distância, temendo nova traição, o lobo falou, somente para Francisco:
“Senhor…Ouvi a vossa palavra e jamais feri a lei que me foi imposta. Aqui mesmo, vivi estes dois anos de trégua…Vivi em calma, mas não satisfeito. Tinha o estômago confortado, mas o espírito em confusão. O HOMEM QUE, SEGUNDO VOSSAS PALAVRAS, FOI FEITO À IMAGEM DE DEUS NOSSO SENHOR, É MIL VEZES PIOR QUE A PIOR FERA DA MATA. Tendo tudo ao seu alcance, procura sempre conquistar mais e o faz pelo caminho mais condenável, usando para isso, ora o embuste, ora a mentira e não hesitando em empregar a força. Sorri para o irmão, desejando a sua desgraça. Beija a mão do poderoso e pisa a cabeça do miserável e pequeno. Tendo os frutos dos pomares, feitos por Deus, persegue, mata, estraçalha os animais para comer-lhes a carne rubra e cria outros, com o mesmo fim interesseiro e assassino!
E a mim, que um naco qualquer poderia contentar, davam-me comida podre e que nem um chacal aceitaria; e agora nem isso, preferindo dar-me pedras, pauladas e tiros… A mim, que não fui feito à imagem de Deus e que só devo comer carne…A mim, que ouvi as vossas palavras e respeitei a vossa paz…E é a mim que falais, a mim que vindes pedir contas pelo retorno ao passado! A eles! A eles, sim irmão Francisco! A eles, que, tendo tudo, sempre querem mais! A eles que prometem com os olhos e com a boca e faltam com o coração! A eles que, feitos à imagem de Nosso Senhor, são, portanto, mais monstruosos e temíveis do que eu!
E tendo falado e vendo entre a multidão muitos que se agachavam à procura de uma pedra, o lobo recuou, fugiu para a floresta, de onde jamais tornou a sair, irremediavelmente desiludido dos homens e das suas leis, e deixando São Francisco de Assis, o protetor dos animais, desolado e sem palavras, pois reconhecia a grande verdade que havia brotado nas palavras do lobo. Em verdade, a verdadeira fera era o homem, para o qual os seus discursos deveriam ser dirigidos.
Violante Pimentel – Escritora
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