Vicente Serejo

Não faz muito tempo, uma semana talvez, o noticiário político mencionou a existência de vozes, ainda tímidas, falando de coalizão. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi ouvido e admitiu aceitar um encontro com a presidente Dilma Rousseff, abrindo o diálogo.  Seria muito mais natural de pactuar a união contra a crise não tivesse o pronunciamento presidencial ficado tão distante da sintonia com o sentimento de brasileiras e brasileiros, para usar sua própria expressão.

Impossível? Não. Mas, o PT é o partido menos qualificado para a cerzidura de um pacto de coalização. Há doze anos governa sozinho, inclusive em relação ao PMDB, seu maior aliado e o responsável pela maioria garantidora da governabilidade. Mas, o governo petista já demonstra os graves sinais de esgotamento e sintomas claros da perda de sintonia coletiva, notadamente com a classe média, segmento fundamental e principal vetor do processo formador da opinião pública.

A rigor, basta olhar pelo retrovisor: o PT perdeu a hora ideal quando já estava com sinais de fragilidade, mas colhendo uma dura e relevante reeleição de Dilma Rousseff, e mesmo depois de um sectarismo que deixou o tucanato em pé de guerra. Não, não propôs. Pelo contrário: a fala da vitória veio com a mesma prepotência de sempre. A soberba de uma vitoriosa que parecia de olhos fechados para a realidade que estava na mídia formal, nas redes sociais, e no seu travesseiro.

E passou a desdizer tudo quanto havia dito antes, chegando a usar uma expressão popular – ‘Nem que a vaca tussa’ – para, dias depois, anunciar o nome de Joaquim Levy como ministro da economia. Um ortodoxo, segundo afirmam os seus críticos, a mexer com a sua vara curta em vespeiros do ideário petista, direitos há vários anos conquistados pela classe trabalhadora diante de uma inflação agora desembestada e a regurgitar bem na cara dos brasileiras e brasileiros atônitos.

O marketing que sempre foi o maior aliado petista, bem revestido daquele magnetismo de Lula, é hoje a criatura contra o criador. Como tudo aumentou, e o país vive hoje o início de uma recessão sobre um pântano, foi tudo mentira eleitoral. O escândalo do Petrolão – com magnitude que espanta o mundo levou a presidente a buscar o Congresso, depois de perdê-lo; a oposição que nunca respeitou; e um diálogo que jamais desejou, e quando a Nação já não deseja mais ouvi-la.

Na verdade, a verdade é uma só, por mais que pareça pleonasmo: a senhora presidente do Brasil vive a maior fragilidade do seu tempo de governo. Pode até não ter o trágico epílogo de um impedimento, mas, é como escreveu Carlos Heitor Cony, se o sentimento médio não acusa ou desconfia do envolvimento da presidente no Petrolão, também não mais demonstra acreditar mais que ela não sabia de tudo. E de um tudo que fez sua palavra cair no desvão da descrença coletiva.

Vicente Serejo – Jornalista e Escritor

Ponto de Vista

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