INSPIRAÇÃO –

Vou confessar uma coisa. Ando sem inspiração. Não quero comentar sobre políticas, governos, pandemias, nada que me traga desprazer, sofrimento, raiva, tristeza. Quero momentos alegres, vida plena, despreocupação, felicidades, coisas boas. Mas, olho em redor, e o que vejo? Tristeza, sofrimento, brigas, desentendimentos, ganância, safadezas. Não dá.

Por isso, fico olhando para esse pedaço de papel virtual e não sai nada de minha cabeça que me induza a escrever. Talvez, e aí um grande talvez, lembrar o passado seja a solução. E, na minha idade, o que não falta é passado. Lembro-me de muitas das coisas de meu tempo, e tenho muito a dizer sobre ele. Trabalho, escolas, Carnavais, alegrias e tristezas.

Sobre trabalho, um assunto que está bem no passado, posso dizer algumas coisas que talvez sejam interessantes. Meu pai foi um trabalhador emérito. Em 1932, com 27 anos de idade, abriu sua própria empresa, que existe até hoje, com a ajuda dos filhos e sob a responsabilidade do mais moço, que ficou com a empresa quando ele faleceu. Não tenho muito a falar sobre ela, e apenas dizer que trabalhei com ele desde menino, 9/10 anos de idade, até 1964, quando encontrei meu próprio rumo. Mas, as lições da vida aprendidas durante aquele tempo me ajudaram nas novas atividades.

Estudei o curso primário no Colégio Pedro II, que ficava ali ao lado do teatro e cujo dono e professor principal era o Prof. Severino Bezerra. A aula era pela manhã, das sete às onze, e quando terminava ia para o escritório, que era relativamente perto. Comecei meu trabalho lá de baixo, varrendo o salão, indo ao Correio, entregando correspondência da firma para clientes nossos. Fui crescendo e quando deixei a firma em 1964 era o gerente. Nesse intervalo, fiz Direito, e embora tivesse praticado muito pouco, foi de grande valia. – Nunca esqueci; dias de chuva, a Ribeira alagava e chegava ao escritório com água na cintura. Essas enchentes duraram anos, até que José Agripino foi Prefeito e acabou com as enchentes. Dá saudade, e até hoje não o perdoei.

Queria mudar de “ramo” e resolvi ser Professor. Falava inglês muito bem, com bom conhecimento dos “segredos” da língua, e passei a ensinar na SCBEU, da qual tinha sido um dos fundadores. Depois, fiz concurso para a UFRN e ali minha vida mudou completamente. Fui fazer mestrado nos EUA e meu título me permitiu, como lá a flexibilidade na escolho de cursos é muito grande, fazer Mestrado em Administração e Engenharia de Produção, em 1964. Foi das minhas melhores experiências. Uma das coisas de que me ufano é ter tido a possibilidade de trabalhar muito de perto do Reitor, Dr. Onofre, que me ensinou muita coisa.

Com o apoio dele, ao voltar, montamos alguns projetos inovadores. Ele já tinha bolado o CRUTAC, e trabalhei um tempo nele. Mas aí fizemos dois projetos interessantes, o Projeto Saci, com Fernando de Mendonça, diretor da CNAE (hoje INPE), que utilizava a TV para transmitir aulas, se preparando para usar um satélite para isso, e depois o RITA, com a Utah State University, para apoio ao desenvolvimento industrial rural. Duas experiências inolvidáveis, a primeira tendo deixado a TV Universitária, e a segunda sendo o embrião que nos levou ao SEBRAE. Fiquei na Universidade até me aposentar, em 1991. Mas ainda trabalhei dez anos como consultor de empresas. Quando diz setenta anos, pendurei as chuteiras e nunca mas dei um prego numa barra de sabão. E enchi minha vida com outras coisas, inclusive escreve, como se dizia antigamente, “estas mal traçadas linhas”.

E vou parar por aqui. Para quem não tinha o que dizer, já falei demais. Depois eu continuo.

 

 

 

 

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN, dandrade@dmandrade.com.br

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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