HÁ EM TUDO QUE FAZEMOS: UMA RAZÃO… – Flávia Arruda

HÁ EM TUDO QUE FAZEMOS: UMA RAZÃO…

 

Há em Tudo que Fazemos.

Uma razão singular;

É que não é o que queremos.

Faz-se porque nós Vivemos.

E viver é não pensar.

Se alguém pensasse na vida;

Morria de pensamento.

Por isso a vida vivida

É essa coisa esquecida.

Entre um momento e um momento.

Mas nada importa que o seja

Ou até que deixe de o ser

Mal é que a moral nos reja.

Bom é que ninguém nos veja.

Entre isso fica Viver.

(Fernando Pessoa)

Eu já estive aqui há algum tempo, ou melhor, acho que nunca saí daqui. Caminhei por espaços iluminados e escuros, sombrios e reveladores. Havia dado uma trégua temporária aos meus questionamentos, íntimos e profundos, sobre o que somos o que fazemos e como vivemos. Até ler novamente um dos poemas de Fernando Pessoa.

E a vida… Como diz o poeta “entre um momento e um momento” estão os retalhos que constroem a colcha de nossas vidas, aos quais nos agasalhamos nos momentos de frio, nos enfiando por debaixo dela no afã de esconder os nossos mais sórdidos segredos, envergonhados por sermos humanos e mortais, embutindo-os entre uma emenda e outra. Cingindo os desalentos em busca do entendimento.

Cose e descostura. Emenda e “desemenda”. Apara e faz o embainhado. Acertando e errando nos tamanhos e quantidades. Falando demais, ou aquietando-se – entre a verdade e a sinceridade… Aí estão os esforços nossos de cada dia, entre as intimidações sociais e a subjetividade que emana das entranhas.

Dos retalhos, uns coloridos outros opacos, vão dando formas e cores às individualidades do nosso íntimo, sobrepondo tramas da razão e emendas da emoção. Entrelaçando-se entre os nós cegos, que fecham as costuras em seus arremates finais.

Isso é o que somos: pedaços de seda nobre, algodão, lã, chita e juta. Felpudos, lisos, macios ou ásperos. Pedaços bons e ruins, trapos e farrapos, melhores ou piores, puro linho e seda nobre. De tramas fechadas ou em telas vazadas. Colchas que, apesar da variedade das formas, texturas e cores, estão forradas e revestidas pela manta viva dos nossos desejos e vontades, alinhavadas pelo discernimento acolhedor, que nos possibilita viver a vida em todos seus vieses. Assim. “Se alguém pensasse na vida; / Morria de pensamento”.

 

 

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, cronicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

PF faz operação contra servidores da AmazonPrev por investimento milionário no liquidado Banco Master

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (6) a operação “Sine Consensu” contra três servidores da…

1 dia ago

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3160 DÓLAR TURISMO: R$ 5,5080 EURO: R$ 6,1410 LIBRA: R$ 7,0710…

1 dia ago

Japão aprova primeiro tratamento com células-tronco para Parkinson; terapia pode chegar aos pacientes ainda este ano

O Japão aprovou um tratamento inovador contra a doença de Parkinson que utiliza células-tronco para…

1 dia ago

Adolescente de 17 anos é morta a tiros dentro de casa na Grande Natal

Uma adolescente foi morta a tiros dentro da casa dos avós na madrugada dessa quinta-feira (5)…

1 dia ago

Pastor é preso por suspeita de estupro de vulnerável em Santa Cruz

Um pastor evangélico de 63 anos foi preso nesta quinta-feira (5), em Parnamirim, suspeito de estupro…

1 dia ago

Justiça proíbe Havan de usar personagem ‘Fofão’ em promoções após ação movida pela Carreta Furacão

A Justiça de Ribeirão Preto (SP) proibiu a Havan, do empresário de Santa Catarina Luciano Hang, de…

1 dia ago

This website uses cookies.