O SAGRADO E O EFÊMERO PESO DAS HORAS – Tatyanny Souza do Nascimento

O SAGRADO E O EFÊMERO PESO DAS HORAS –                              

 

“Compositor de Destinos
Tambor de Todos os Ritmos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo…”
(Canção Oração do Tempo do Caetano Veloso, Compositor Brasileiro)

Essa não é apenas uma música sobre o tempo, mas uma oração, uma prece. Ao tempo é pedido bênçãos, justiça, calma e compaixão. Era apenas uma selfie, um sorriso emoldurado pela pressa do instante na praia. Mas na tela, vi pela primeira vez as rugas que o tempo desenhou em mim. Pequenas fendas, quase imperceptíveis, que, de repente, se revelaram como uma assinatura silenciosa: “o tempo passou por aqui. ”

Estranho como o estético se impõe antes de todas as outras forças do tempo. Tratamos linhas de expressão com cremes, ácidos e filtros, mas não damos o mesmo zelo às cicatrizes invisíveis que ele grava em nossos pensamentos, em nossas escolhas, em nossos afetos. A pele denuncia mais do que a alma? Ou é a alma que, aos poucos, emerge pela pele?

Naquele instante, compreendi que aquelas rugas eram mais que sinais da idade. Eram lembranças encarnadas. Marcas daquilo que chorei, ri, temi e amei. E me lembrei que o tempo também me ofereceu milagres: a cura das dores que pareciam eternas, a mudança das rotas que julgava definitivas, a possibilidade de recomeçar depois do impossível.

Platão dizia que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. E talvez seja isso que as rugas anunciam: não apenas a finitude da carne, mas a eternidade dos instantes que nos atravessaram.       Outro filósofo, Kierkegaard lembrava que “o instante é a porta estreita pela qual pode passar a eternidade”. Ao sorrir para a câmera, percebi que o tempo, no fundo, não me roubou nada — apenas transformou cada instante em eternidade guardada em marcas sutis.

Lembrei-me também de Caetano Veloso, quando canta: “És um dos deuses mais lindos”. Sim, o tempo é um deus paradoxal: ao mesmo tempo cruel e misericordioso. Ele nos tira a juventude, mas nos devolve sabedoria; rouba a leveza da pele, mas nos dá a leveza de compreender que nada dura.

 Sensivelmente, percebi que a selfie, em sua banalidade contemporânea, me ofereceu uma revelação ancestral: o tempo é estético, mas nunca apenas “estético”. No fim, sorri de novo, não para congelar a imagem, mas para agradecer ao invisível escultor que, entre rugas e milagres, me faz ser quem sou. Como está escrito na Literatura de Tradição bíblica em Eclesiastes 3:1: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu”. (Salomão: antigo Rei de Israel). Porque há algo de sagrado no efêmero peso das horas: é nesse fardo que carregamos a leveza de existir. Há um cais dentro de nós, lugar onde o tempo se encontra com a memória, onde o passado e o futuro parecem conversar.

“And then one day you find, ten years have got behind you. ”
Pink Floyd (CançãoTime da banda de inglesa de Rock, desde a década de 60)

“E, então, um dia você descobre que dez anos ficaram para trás. ” (tradução livre): A frase ressoa como um sopro silencioso sobre nossos ombros. Dez anos, um número, mas também um mundo: crianças que fomos, sonhos que alimentamos, palavras que nunca dissemos. Tudo ficou para trás, não por negligência, mas pelo fluxo inexorável do tempo.

Há algo de aterrador e de sagrado nesse momento de percepção: percebemos que a vida não se mede apenas em relógios ou calendários, mas em instantes vividos e perdidos, em escolhas feitas e oportunidades que passaram sem aviso.

A vida é rio, como metaforizou Heráclito, e cada década que se afasta é uma curva que nos leva a novos horizontes, mesmo que nos assuste o que deixamos para trás. O tempo não é apenas sequência de segundos, mas consciência de nossa finitude: só ao perceber que os anos já se foram podemos reconhecer o valor do presente.

Poeticamente, ela nos obriga a olhar para trás sem pesar e para frente sem pressa. Dez anos podem parecer perdidos, mas, se olharmos com atenção, são compostos de milagres sutis: encontros inesperados, aprendizados silenciosos, amores que nos marcaram. O tempo não nos rouba; ele transforma.

E nesse despertar, entendemos algo essencial: cada instante carregado de atenção e presença é um antídoto contra o desespero de ver o passado escapar. Dez anos ficaram para trás, sim, mas o que realmente conta não é a contagem, e sim a profundidade com que vivemos cada instante.

 Quais rugas, visíveis ou invisíveis, contam a história da sua vida até aqui?

 

 

Tatyanny Souza do Nascimento –

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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