Valério Mesquita

A política sempre foi pródiga de segredos sondáveis e insondáveis. As revelações nem sempre acontecem nos grandes momentos das gentes e agentes mas nascem da rotina de fatos miúdos da política interiorana, fruto da observação paciente e anônima. Precisou uma tarde longínqua do ano da graça de 1962 para conhecer e decifrar dois temperamentos políticos e mais do que isso: demasiadamente humanos. Refiro-me aos ex-governadores Dinarte de Medeiros Mariz e Tarcisio de Vasconcelos Maia, ambos candidatos ao Senado da República. Campanha difícil com cinco disputantes para as duas vagas.

O cenário era a rua Francisco da Cruz, centro de Macaíba, onde o líder local prefeito Alfredo Mesquita Filho os esperava para jantar e, em seguida, comício. Foguetões, bandeirolas, algazarras, banda e o refrão da música do momento: “Foi o próprio povo que chegou a conclusão, o velho tinha razão, o velho tinha razão”. No ar, um cheiro de combustão, de carbureto, digno do melhor pastoril. A ala moça numerosa, trajava um vermelho vivo, da cor da paixão e do ódio dos litigantes. Dinarte e Tarcisio, no meio do povão,  desmanchavam-se em beijos e abraços festivos. Foi aí que notei um contraponto: o velho senador era mais entusiasticamente saudado pelo povão e Tarcisio pelo mulheril embevecido com seus ademanes corteses e disciplinados. Deduzi, como espectador atento da cena, no senso dos meus vinte anos, que Dinarte Mariz tinha carisma tanto quanto razão, e, Tarcisio, infundia mais glamour tanto quanto impressão pessoal. Pensei que ali, havia matado a charada dos dois, o segredo individual da conquista do voto.

Mas a festa continuou. Após o jantar os candidatos se dirigiram ao palanque armado nas “Cinco Bocas”, confluência de igual número de ruas, sob o calor de novas manifestações populares. Postei-me estrategicamente para ouvir os discursos sem abandonar as conclusões preliminares que foram robustecidas durante a refeição. Dinarte continuaria a se constranger por não querer parecer ou ser tratado como mais velho que seu parceiro? Não sei, não sei. Seria tudo criação de minha mente indagativa e curiosa? Mas, logo veio a resposta. Ao ser anunciado para falar, antes de Dinarte, que, por ser o líder, sempre encerrava as concentrações, Tarcisio quedou-se maravilhado com os suspiros e gritinhos juvenis da brava ala moça macaibense. Aí fendeu o ar como um relâmpago logo na primeira exortação: “Saúdo as meninas, de vermelho e branco, namoradas, neste reencontro em Macaíba… eu e o veeelho!!..”. Olhei rápido para Dinarte e notei que interrompera um sorriso que levemente se esboçava. Tatá havia forçado a barra. Estavam confirmadas as minhas suspeitas psicológicas. E na mídia popular continuava o litígio: carisma versus glamour.

Valério MesquitaEscritor – mesquita.valerio@gmail.com

Ponto de Vista

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