FEDEGOSO –
Nascido em família humilíssima, não lhe ensinaram o caminho da escola. Tampouco o do lazer condigno e o da mesa ao menos mediana. Na infância virou-se como possível para comer e arranjar uns andrajos para cobrir-lhe as vergonhas. Virou biscateiro, fazendo mandados para quem lhe dava tostão. Tinha na feira-livre semanal a oportunidade de aumentar os ganhos, sendo o balaieiro das madames que adquiriam suprimentos para as suas despensas, para ele sobrando a dispensa, moedas na mão, ao final do serviço.
Ao ficar taludo não quis mais ser visto com balaio à cabeça, já que aquilo era tarefa para pixote. Deu-se ao eito, partindo para o campo trabalhar na enxada, “de alugado”. [Vejam o aviltamento da labuta do agricultor: quase escravo, em troca de alguma remuneração tolhiam-se-lhe os predicativos de cidadão para reduzi-lo a coisa, passível de aluguer.]
Anos da juventude abrindo sulcos na terra para semear o que não era seu e nem teria direito ao fruto. Se quisesse daquilo comer, que comprasse, ora! Que tirasse do pouco que ganhava com as diárias ou as empreitadas, na sua singeleza vernacular chamadas “empeleita”, forma de contrato rude, de adesão, sem direito a discutir cláusulas.
Cansou! Queria procurar melhoras. Soube de um fulano que passava por ali com um caminhão adaptado para levar pessoas “para o Sul”. Não importava se esse “sul” era em Minas, Goiás ou São Paulo. Os sonhos que se desenhavam na sua mente eram maiores do que a distância que se abria e o cansaço que a viagem poderia gerar. Foi.
Cinco anos depois retornou à terra natal. Queria demonstrar ser um vitorioso. Equipou-se com o que de melhor poderia apresentar aos seus conterrâneos: óculos escuros, chapéu de caubói, botas com salto carrapeta, camisa estampada. Um rádio portátil colado ao ouvido e uma muda de roupa em uma sacola ordinária. Ao desembarcar, foi reconhecido pela vagabundagem da cidadezinha. Ao invés de uma aclamação de vencedor, ouviu foi o grito do seu apelido, que tanto o incomodava: “Fedegoso!!!”. Nome de arbusto; nome de bode, nome de palhaço de circo mambembe.
Trancou-se na casa da mãe e aguardou o fim da quinzena, quando o agenciador de mão de obra “alugada” o levou de volta à subserviência sulina. Pelo menos ali teria nome de gente. Seria uma coisa, alugada, mas não seria bode e nem palhaço. Arbusto, talvez.
Ivan Lira de Carvalho – Juiz Federal e Professor – ivanlira6@uol.com.br
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