FALANDO NAS CANETINHAS – Bárbara Seabra

FALANDO NAS CANETINHAS –

Pensei muito antes de escrever este texto. Não quero fazer disso uma batalha, com prós e contras ou, pior, ser uma defensora ferrenha de um lado ou outro. Mas, depois de ouvir um diálogo insano enquanto treinava em um dia que esqueci meus fones de ouvido, penso ser necessário comentar sobre isso.

Duas pessoas ao meu lado apontavam para alguns e perguntavam “você acha que é mounjaro?”. Ou afirmavam “Deus me livre precisar disso se posso fazer meus treinos!”. Eu me questionava se eles falam o mesmo para alguém com uso de medicação para depressão, diabetes ou qualquer doença silenciosa. Como se as canetinhas fossem usadas exclusivamente para reduzir o peso e, pasme!, como se ser gordinha fosse preguiça de treinar ou “não conseguir controlar a boca”.

Porque as canetinhas, como carinhosamente apelidamos, são medicamentos. E não são fáceis de usar! Digo isso como alguém que está em tratamento faz seis meses. Requer uma disciplina assustadora. Além de vitaminas, creatina, whey, ingestão de água, de fibras, de proteína, preciso de acompanhamento médico constante, com exames de imagem e de sangue, doses controladas de perto, musculação como parte do tratamento, comer mesmo sem querer. Enfim, não é mágico. Parece que é, né? Olhando de fora parece “comprou, emagreceu”. Muito longe disso!

A balança nem sempre é aliada e a psicoterapia precisa ser coadjuvante no tratamento.

Sim, perdi peso. Mas tem coisas além do peso que estão em jogo. E elas não são um jogo de apontar: é mounjaro ou não é? Vai além do peso, da estética, de entrar no padrão. É lutar com uma arma contra um vilão, em alguns casos a obesidade, como em qualquer situação que se aparece na vida.

Enquanto os dois gargalhavam e julgavam cada pessoa que passava, eu me questionava se ia lá e dizia algo para os trazer ao mundo real. Preferi a resposta silenciosa. Continuei contando até 15 repetidas vezes enquanto ia de um equipamento a outro na academia. Chateada por ter esquecido meus fones. Feliz por poder estar em tratamento e ver que sou forte pra caramba para usar as canetinhas e fazer tudo como sou instruída pela médica que me acompanha.

Não é milagre.

É disciplina.

Não é vergonha usar.

Vergonha é julgar.

Observação: como qualquer tratamento medicamentoso, faça acompanhamento por um médico responsável!

 

 

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento” e Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

  DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,3430 DÓLAR TURISMO: R$ 5,5550 EURO: R$ 5,9530 LIBRA: R$ 6,1140…

9 horas ago

Picanha, festa, tensão e silêncio: empresário filma bastidores de Flávio e aliados na apuração

O empresário Paul Malicki, CEO da Fly Flapper, postou em suas redes os bastidores do…

10 horas ago

Polícia ouve testemunhas e identifica mulher filmada fazendo saudação nazista após votar no Rio

A Polícia Civil já ouviu testemunhas e identificou a mulher filmada fazendo uma saudação nazista…

10 horas ago

Engenheiro morre após ser agredido e roubado por grupo depois de ato pró-Lula no litoral de SP

O engenheiro ambiental e mestrando Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, morreu após ser…

10 horas ago

Polícia ouve testemunhas e identifica mulher filmada fazendo saudação nazista após votar no Rio

A Polícia Civil ouviu, na tarde dessa segunda-feira (26), os três jovens suspeitos de fazer…

10 horas ago

Sem apresentar provas, Trump diz que eleição no Brasil ‘pareceu fraudada’ e afirma que ‘gosta do Lula’

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nessa segunda-feira (26) que a eleição no…

10 horas ago

This website uses cookies.