FACE OCULTA –

Contemplo do alto a floresta de edifícios de Natal e me sinto soterrado nas fundações. Não consigo emergir à superfície de suas vaidades. A cidade virou feira de remarcações e os falsos valores estão arrematando caráter em banda de lata. Nunca a urbe dos reis magos sofreu tanto da coluna vertebral. Prefiro aquela pacata cidadela que não depositava caráter em conta bancária. Havia concórdia entre os cidadãos e amizade entre os vizinhos. Era o tempo em que a insônia provocada pela riqueza fazia emagrecer. Hoje, os sócios ocultos do erário público dormem com a justiça e celebram com a crônica social.

Dia passado, num escritório de advocacia assisti uma cena típica dos novos tempos. Ao telefone, um conhecido causídico homenageava o seu escritório revelando que recebia a visita de fulano de tal, político, médico e agora vivendo apenas da profissão. Era uma carta fora do baralho das riquezas emergentes. O obstetra aguardou curioso do outro lado da linha uma referência elogiosa mas não veio. O advogado desligou parecendo constrangido na fisionomia como se arrependido estivesse pela citação do visitante. Constrangimento. Ao lado, entendi que o médico passará a figurar como paciente da UTI dos novos lisos do Rio Grande do Norte. Virava estatística entre os decaídos. Assim é Natal, a cidade que mais negocia apartamentos no nordeste do País. Onde se conhece o preço de tudo e não se sabe o valor de nada. Muitos cobram comissão e não pagam dízimo a igreja mais próxima.

A difusa fluidez temporal da vida não comove o insensato que segrega o próximo e que não pensa na noite sem face e derradeira do ataúde. Outro dia foi a vez de um mequetrefe, assessor funcional de uma fundação estadual, que demonstrou sua vocação mórbida de bajulador e subserviente por dissimular e “resguardar” o seu chefe de contato com os que desejam dialogar sobre o serviço público. Deve viver numa jaula, limitado às imposições de uma vida miúda, repleta de frustrações. Outro aspecto digno de nota é o daqueles que, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras na mais profunda indiferença. Amizade para eles virou interesse, esbulho, vantagem, lucro, contrato leonino, no qual é sempre beneficiário. Perderam a densidade moral, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.

Hoje, em nossa capital, ainda se fala sobre Zé Areia, Newton Navarro, Câmara Cascudo, Alberto Maranhão, Augusto Severo, Albimar Marinho e tantos outros nomes da boemia, da política, da literatura, da medicina, da advocacia, etc. Mas os atuais poderosos da elite social que impõem iniqüidades à mídia não serão lembrados amanhã porque nada fazem por Natal. Saqueiam-na. São os predadores de plantão, os negocistas.

Ante o espanto de uma Natal de alma dilacerada preciso recuperar minha auto-estima. Deduzo que a burguesia não fede. Abomináveis são as rugas de sua infinita vaidade e grave insensibilidade estampadas no rosto dos jornais. Enquanto isso, nós, cristãos imolados do “baile fiscal” continuaremos lavrando o nosso campo ensangüentado de acácias douradas dos jardins de Natal.

Para encerrar, após um chatérrimo fim de semana de longa travessia do horário eleitoral, lembrei-me que até agora as autoridades da saúde municipal, nada fizeram para enfrentar a invasão iminente dos mosquitos da dengue. Os infectologistas já alertaram sobre o perigo dos imóveis desocupados, mas fechados. Enquanto isso, do fundo eleitoral tem dinheiro pra tudo. Essa vida é mesmo um ziguezague de contradições. E por outro lado, os pobres gemem nos hospitais sob o peso da matéria maldosa do escárnio.

 

 

 

 

 

 

Valério Mesquita – EscritorMesquita.valerio@gmail.com

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