DUELO DE TITÃS –

E lá se foi o tempo que uma dupla de área dominava a rua da Cruz e as Cinco Bocas em Macaíba, com os seus porres homéricos e hilários. Neto Soares era comerciante, pioneiro do setor de eletrodomésticos da cidade e foi um fiel curtidor dos whiskys Bradford, Drurys e Royal Label. A bebida subia-lhe a cabeça e triste de quem fosse lhe aporrinhar. Era tolerância zero. Bom orador, as suas afobações etílicas fechavam a rua Francisco da Cruz.

Vizinho, outra figura boêmia revelava-se: João Pampa (João de Casto Gomes), era funcionário público e comerciante, falava alto e discutia sobre tudo. Nessa época (anos oitenta), Macaíba pertencia mais aos seus filhos, tinha identidade própria e se divertia com as brincadeiras, os folguedos e até os excessos dos seus habitantes. Neto Soares e João Pampa foram expressões de uma época de lirismo em que as pessoas divergiam sem odiar, com a vida correndo mansa, embalada pelas canções de Nelson Gonçalves e Roberto Carlos.

Quando os dois entravam em “curto-circuito” a rua tremia. E logo vinha a mente a cena do filme de faroeste “Duelo ao Pôr do Sol”. Imaginava-se os dois, no meio da rua, vestidos à cowboy e alguém contando até dez para saber quem sacaria primeiro. Mas tudo era só invenção. Só barulho, papo furado, para no dia seguinte a cidade ter o que falar de forma divertida.

As histórias que protagonizaram ainda permanecem vivas na memória de muita gente. Relembrando os dois, hoje, homenageando uma época, uma fase da vida social de Macaíba e, por extensão, outros tantos que encararam o lado sério da vida com dissipações e travessuras para ratificar o ditado de que nem só de sisudez e recato vive o homem. Mas tudo passou.

Foram cidadãos voltados  para suas atividades profissionais. Quem passa na rua hoje não há quem não se recorde daqueles tempos dos porres, dos berros e da agitação que promoviam. As paredes das casas e o calçamento estão impregnados dos seus passos. O vento carpidor que vem do rio Jundiaí ainda ecoa as bravatas de Pampa e Neto. Quando visito Macaíba e a casa dos meus pais, hoje Casa da Cultura Popular Nair de Andrade Mesquita, olho para a residência de João, quatro casas à direita e a de Neto, vizinho de frente, ainda sintindo arrepios imaginando, de repente, aquela cena de filme – mesmo sem estarem mais conosco nessa vida – mas só para reviver o tempo e manter a escrita de que os dois fechavam mesmo, no passado, a rua Francisco da Cruz.

 

Valério Mesquita – Escritor, membro da ANL e do IHGRN– mesquita.valerio@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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