DIA DE ELEIÇÃO –
Era dia de Eleição, décadas atrás, entrando pelo século passado (50/60), e Nova Cruz (RN) estava em festa.
Caminhões carregados de eleitores, vindos da zona rural e lugarejos vizinhos chegavam a toda hora. Os candidatos pela UDN e PSD ofereciam mesa farta aos votantes famintos, coisa que sempre ocorria nas eleições. Comidas pesadas como feijoada, buchada de bode, rabada, cozido e sarapatel, à vontade. A fartura era grande e os eleitores comiam até se empanturrarem.

Antigamente, as cabines de votação eram fechadas.

Pois bem. Nessas referidas eleições, aconteceu um caso constrangedor e ao mesmo tempo hilário.

Um eleitor que votaria pela primeira vez, muito nervoso, ao entrar na cabine de votação foi acometido de uma enorme cólica intestinal, a chamada dor de barriga “de chicote”. Essa que chega traiçoeiramente, e não há reza forte que a faça recuar. Não há santo que a segure, e as tripas fervem e gritam:

“Ó abre alas, que eu quero passar!!!”

O eleitor tinha comido muita buchada de bode e outras comidas pesadas, na mesa farta oferecida pelo seu candidato a Prefeito.

Sem outra solução, acocorou-se perto da cabine de votação, num canto de parede, e não teve tempo de raciocinar. Não houve santo nem arcanjo que ouvisse os seus apelos. De tão nervoso e “apertado” que estava, fez o “serviço” ali mesmo, sem saber que estava homenageando a todos os corruptos, assaltantes do erário público.

Suando frio e apavorado com o que lhe pudesse acontecer, inclusive com medo de ser preso, por desrespeito aos candidatos,  o eleitor ” debutante” se higienizou com a chapa de votação oficial, que lhe fora entregue pelo mesário, e também com a “cola” que trouxera, e todos os “santinhos” que guardava nos bolsos, todos com a cara dos candidatos.

O fato é que o eleitor ultrapassou o tempo de permanência na cabine de votação, o que chamou a atenção dos fiscais.

O mesário bateu à porta da cabine, chamou o nome do eleitor e disse-lhe que o seu tempo de votação havia se esgotado. Depois de alguns segundos, uma voz cansada respondeu: “Tem gente!” E o eleitor não saiu.

A ênfase do mesário aumentou:

– Senhor José Apolinário da Silva, seu tempo de votação terminou!

Transtornado, o eleitor estreante, ao ouvir alguém chamar seu nome, vestiu-se de qualquer jeito, e saiu da cabine como um raio, deixando-a um horror de fezes e mau-cheiro. Sentiu-se como se estivesse saindo do inferno, sentindo-se a pessoa mais infeliz do mundo.

Retornou à sua casa na zona rural traumatizado, e a lembrança desse dia fatídico nunca saiu da sua mente. Quando escuta a palavra “eleição”, se benze três vezes e faz figa.

 

 

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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