DE RACIOCÍNIO PERIFÉRICO – José Delfino

DE RACIOCÍNIO PERIFÉRICO – 

Pense num cara racional o tal do Sartre. Dizia ele que como um objeto está obrigado a existir segundo as quatro dimensões, também uma intenção, um prazer, uma dor, não poderiam existir exceto como a consciência imediata de nós mesmos. “Óbvio”, poderia você dizer, “eu também penso da mesma forma”. Acontece que só este tipo de gente sabe escolher o “mot juste” e o fraseado perfeito pra mexer conosco. Quem não domina bem a escrita e a língua, dizem, não deveria nem escrever cartas de amor, quanto mais ter o direito de pensar nessas coisas entre quatro paredes. Estão lembrados de Nabokov? “Lo-li-ta: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, afim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. Lo-li-ta”. Isso porque ele era russo e, meu Deus, escrevia em inglês.

Certo pareceria estar Sartre, quando afirma, também, que a vida precede a essência e que estamos condenados a ser livres. Seria o mesmo que dizer que “ser é escolher-se” e tentar “viver bem” o objetivo, este absoluto/relativo em cada um de nós. Ainda bem que os meus prazeres, minhas intenções e as minhas dores cabem no meu quarto de dormir, que um leitor desavisado, quando escrevi certa vez, associou a sexo. Ledo engano, mas paciência! Vou sempre para onde a minha necessidade imediata aponta e pronto. Confrontar o que eu acho sobre o que os outros escrevem (e, algumas vezes, não dizem) e parafrasear (esse modo diverso de expressar frases ou textos, sem que se altere o significado da primeira versão). Mas é que eles, apesar de extremamente necessários, de um certo modo, complicam.

Os epicuristas tergiversam. Aristóteles parece querer suplantar Platão, em vão. Os estóicos atacam às vezes, erram o tiro e acertam no que não vêem (acento na primeira vogal, hoje descabido depois da reforma ortográfica, mas é que às vezes gosto de dar uma de conservador até nisso). E hoje em dia Woody Allen com aquela ideia fixa de querer fazer a minha cabeça. Bem natural, pois minha vida se assemelharia em alguns pontos às peças dele. Um tanto complicado parece, pois, arrumar todas essas coisas para tocar em frente a existência. É quando eu penso em toda essa gente humilde e na sua solidão a um ou a dois. Onde predominam os sibilos asmáticos no peito, quase inaudíveis, bem leves, como a pedir socorro. O coração acompanhando o ritmo deles.

As bocas escancaradas e a impossibilidade de se tocarem as línguas no céu da boca e darem uma certa lógica ao dia-a-dia. A fronha do travesseiro melada de cuspe, a taquicardia acordada e sonolenta fugindo ao chuveiro para o ato de ensaboar virar carinho. O jato forte de água quente, um bálsamo. Olhares se encontrando num escarcéu reprimido. Toques sutis de mãos nos corpos mal compreendidos. A constatação dos injustificáveis dias anteriores terem sido cruéis. Inibições a toda prova. O ser humano é tímido e não parece. E em muitos finais de caça a humilhação e o desencanto de mãos dadas, nem fecham a porta direito, em solidão tamanha, vão tomar uma cerveja no bar da esquina. Por pior que possa parecer, quando os hormônios sexuais estão em alta ocupando o seu espaço no corpo, homens e mulheres ficam bem piores do que parecem.

E eu aqui nessa minha metafísica inútil discorrendo sobre princípios com o raciocínio agudo de uma dona de casa ao tentar arrumar a casa e acionar ao mesmo tempo a metralhadora giratória para proteger os filhos. Tentando discutir atabalhoadamente sobre princípios que aprendi, que não entendo bem, mas que explicam e garantem a realidade das coisas. Como a de pensar, viver o prazer do passado, da memória, do ouvir, do comer, do beber, do hoje e do bem estar que dá a longevidade lúcida, dentre inúmeros outros. Enfim, até ao ponto de poder exercer o benefício da dúvida, no exato momento quando tento marcar Proust entrando na área do gol: “A recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar já respirado. Os verdadeiros paraísos são os que já perdemos”. Coisa em que não acredito. Inútil para mim, pelo menos. Se isto for verdade, só sobraria o passar do tempo e usá-lo como terapêutica, ou ir em busca da prescrição de relógios nos consultórios médicos, como alternativa de solução, como diria o bardo da rua São João.

José Delfino – Médico, músico e poeta.

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