DE PAPO NUM SALÃO DE BELEZA – José Delfino

DE PAPO NUM SALÃO DE BELEZA –
Dei um “break”, um final de manhã desses. Um pulinho no salão de Getúlio, quase ao meio-dia como de hábito, para por um basta à esta vasta cabeleira de terceira idade. A verdade é que conversa vai, conversa vem, entre os sons caóticos e atonais dos secadores de cabelo, o assunto principal resvalou para o tema perigoso e escorregadio da religião e da fé. Dentre a maioria devota cuidando dos pés, pelos, mãos, unhas, eu, o “bendito é o fruto …”, identifiquei-me como ateu, graças a Deus!
Rolou um papo legal. Para surpresa minha, o celebrado estilista (e cronista social nas raras horas vagas) publicou no facebook: “Ateísmo é uma forma de religião” (José Delfino). Li e pensando no filme “O homem que matou o facínora” disse a mim mesmo, publique-se a lenda. Vi, também, um comentário do Dr. Frank Kafka (o Anestesiologista ) não confundir com o cara que descreveu a metamorfose do homem que acordou barata: “As religiões são como canais diferentes de uma TV. Ateísmo é como uma TV desligada . Que achas, Zedelfino? Peguei daí. Religião é uma forma de emoção. É ela que leva à crença. A sua rejeição é permeada também por ela (a emoção) de maneira análoga.
Por um lado, inúmeras proposições do tipo “não existem”, existem aqui na terra. O Papai Noel, a Fada Madrinha, o Macunaíma, o Sherlock Holmes, o detetive Spinoza (estes até endereço fixo têm, em Baker Street (Londres ) e no bairro Peixoto (Rio de Janeiro ), respectivamente. Fui ao Rio, certa vez, com um amigo meu maníaco como eu, por literatura policial para vê-la. Baseado nas informações do detetive Spinoza, parece que localizamos a casa, apesar de ao contrário da de Holmes, nela não existir o número correspondente.
Acreditar, piamente, em coisas assim é tão exótico e contrário à noção real que temos do mundo, que beira o delírio. O medo de Deus e da morte, por outro lado, é ao fim e ao cabo, uma droga eficaz para mitigar o medo que temos à respeito de para onde iremos após nossa finitude. Para tentar curar, em vão, a sensação de dúvida acerca de nossa pressuposta ausência de raízes.
O importante na prática não é o que se diz, mas o bem que se faz e pratica. Daí o temperamento dos ateus ser, na sua maioria, aparentado ao de pessoas profundamente religiosas. Quando se diz “eu sei que o meu Redentor vive” não é algo verdadeiro ou falso, mas a mesma frase assume significado específico quando investida nas citações ou nas cantatas nas igreja durante a missa do Natal, por exemplo. Acontece que para o clero, seja ele qual for, no alto da sua onipotência, os rituais e palavras não são apenas expressões autocontidas de sentimento, mas precursoras de perseguições e proibições embasadas nos dogmas de fé. A história das religiões dá conta disso.
Em princípio, todas as religiões pregam o amor e fora dele, só haveria redenção através do castigo e do perdão divinos. O ecumenismo, hoje democrático e desalentado, nem sempre fez parte do mundo. Daí, em tese me parece, o problema ser mais a distância entre o que o intelecto diz e o que se deseja acreditar emocionalmente. Por isso, repito, ser um verdadeiro ateu é ser aparentado ao cristão mais ortodoxo. O que soa paradoxal, já que a palavra “cristão” poderia ser substituída por “budista”, “hinduísta”, “Maometano fundamentalista”, “xiita” ou “sunita”. Agora, acreditar numa força que rege toda essa fenomenologia cósmica onde somos algozes e vítimas, são outros quinhentos. A verdade a ser considerada seria que o ser humano, ancestral e cósmico, tem medo, e sofre.
Ao final do papo, cabelo nos trinques, foi que reconheci uma das clientes; conhecida minha desde os tempos de UFRN, que me prometeu meditar sobre o assunto, “não para mudar as minhas convicções”, disse ela; charmosa e bela, no alto dos seus oitenta e um anos de idade, a lucidez exposta naqueles penetrantes olhos verdes e tristes de Bette Davis. Com certeza, ela não saberia que a minha argumentação derivou da polêmica entre dois malucos belezas, Bertrand Russel (ateu empedernido ) e T.S.Eliot (à época, recém convertido ao catolicismo) que li muitos anos atrás. Como se existissem muitos anos à frente.
José Delfino – Médico, poeta e escritor
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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