Doze anos depois, e apesar de quatro vitórias seguidas garantindo dezesseis anos de poder, é nítido o cenário de desmoronamento político do governo da presidente Dilma Rousseff, mesmo tendo na presidência do Senado e da Câmara, teoricamente, dois correligionários do PMDB. Não será fácil a reconstrução na medida em que a vitória do deputado Eduardo Cunha, no primeiro turno, explodiu como uma derrota do Palácio do Planalto retratada nos punhos fechados que ilustraram suas imagens.

Duas forças se conjugam, fortemente, contra a estabilidade neste início do governo: as graves denúncias que conduzem as suspeitas de envolvimento na direção do Palácio do Planalto e a situação econômica que retira da presidência condições mínimas de governabilidade. Não se trata de admitir a possibilidade, claramente remota, de um impeachment que precisaria nascer nas ruas para ter o fulcro da mudança, mas do risco absoluto de uma perda de sustentação popular se a crise for aprofundada.

É que o PT subestimou as denúncias que se acumularam desde o Mensalão e acabou por criar, ou permitir que se criasse um sentimento de desgoverno que desaguou numa cifra astronômica de bilhões e bilhões, em negociatas dentro e fora do país, agravada pela prisão também de empresários de grande porte. E subestimou tanto, e tão descaradamente, que hoje não encontra na opinião pública quem possa duvidar em sã consciência das gravíssimas revelações feitas pela própria Polícia Federal.

Não se nega que a presidente Dilma tem se mantido fora do círculo de fogo que arde em torno do Palácio do Planalto, cercado de chamas, mas também não se sabe, até quando seu lago vai conter o fogaréu. Ela apostou num modelo que tem no ministro Joaquim Levy seu grande artífice, uma aposta que pode ter resultados práticos dentro de um ano, mas pode fracassar a julgar pela reação de petistas inconformados com o modelo que cortou duramente o orçamento e garroteou investimentos.

Seu governo, e dentro de pouco tempo, vai precisar ser muito bom para suportar sem abalos as duas grandes crises que fustigam sua base populista. E ser bom, a essa altura, já não basta para manter as generosas torneiras dos seus programas sociais assistencialistas. Agora é preciso atender aos anseios de uma classe média que paga o preço da insegurança que volta a viver como o pesadelo do passado, além de uma esfera privada com alguns dos seus principais executivos hoje na cadeia.

O modelo petista sempre foi muito parecido com o getulismo. Uma mão populista a alisar as camadas pobres, e outra estrategista, a manter as bases de uma larga e boa convivência com o capital. Um modelo, convenhamos, que parece esgotado diante de uma crise de gestão que depois de longos anos deixa as contas do país com R$ 17 bilhões de déficit cavados em quatro anos de um descontrole que foi além de todas as previsões petistas. Uma pátria que deseduca a Nação e castiga o seu povo.

Vicente Serejo – jornalista e escritor

Ponto de Vista

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