COISAS BESTAS –

Como é bom entrar e ficar no banheiro, ler os jornais, ver revistas, ouvir música, sem ninguém a berrar “vai demorar”?

Todos nós já vivemos essa experiência do grito do lado de fora: vai demorar? Como é chato, especialmente quando o grito é insistente e você é forçado a responder, “calma, estou saindo”.

Por que lembrei dessa historieta tão besta, mas tão comum e, às vezes, insistente? É que, quando era menino e adolescente sofri muito com esse grito chato.

Éramos uma família grande, mesmo para aqueles tempos. Cinco irmãos e três irmãs. Quando meu pai comprou e reformou uma casa na Rua Assú, começo dos anos 40 (e da guerra), no último quarteirão antes de chegar à Hermes da Fonseca, fez uma grande reforma, colocou um banheiro no quarto dele (naquele tempo não se chamava “suíte”), construiu banheiros para os meninos e as meninas.

Ao amanhecer, todos cinco homens tinham horário de escola, era um sofrimento. Havia uma arma secreta para as emergências, um urinol debaixo da cama. Mas, você tinha que tomar um banho e atender outras necessidades e aí é que surgiam os berros.

Nós tínhamos um único quarto, com cinco camas de um modelo que se chamava Paulista, um ao lado da outra e por precedência de idade. Eu, mais velho, tinha a primeira junto à entrada. Tínhamos que cumprir horários mais ou menos rígidos para organizar as coisas. Dormir, 21 horas, acordar seis da manhã. Nem todos cumpriam essa “organização”. Vocês podem imaginar as confusões. Uns iam dormir mais cedo e quando chegava um atrasado e acendia a luz era um fuzuê. Apaga a luz, deixa de barulho, isso é hora de vir se deitar, isso é hora de acordar! E por aí ia.

Os berros “vai demorar” eram sempre matutinos. Com horário de escola mais ou menos idênticos, todos corriam para o banheiro para chegar primeiro, mas sempre já havia alguém que se antecipara. E aí começavam as reclamações. Eu mesmo só me livrei dessa chatice quando casei e, confesso, foi uma libertação.

São essas coisas que, embora simples, marcam a nossa vida. Quem passou por isso me entende.

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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