CARÍSSIMO CRONISTA, OBERY RODRIGUES – Flávia Arruda

CARÍSSIMO CRONISTA, OBERY RODRIGUES –

Hoje fui à livraria com o intuito de escolher um papel de carta que expressasse o meu prazer em escrever-lhe, de próprio punho, sobre o meu primeiro rebento. Queria desenhar em letras, todo o alfabeto da minha alma, das minhas emoções e impressões. Desenhar, em papel especial, a esquina em que você, nobre cronista, cruzou comigo. É bem certo que eram dias agitados e eu passei despercebida, no entanto, sua presença foi marcante e educativa na minha construção literária.

Pensei num papel que tivesse ao fundo letras soltas, de pensamentos que se fechassem a cada frase construída. Caminhei pelo centro da cidade, busquei papelarias e livrarias. Eu divagava, a cada esquina dobrada, se lá estaria às palavras que iriam compor a carta, escrita de próprio punho, em agradecimento ao mestre das crônicas. Queria contar-lhe sobre a importância dos seus escritos como ensinamentos a essa aprendiz das letras.

Na primeira papelaria, dirigi-me a vendedora e perguntei:

– Vocês têm papéis de cartas?

Ela me olhou como seu eu tivesse falado em mandarim. Ela fitou-me por alguns segundos em silêncio – acho que buscava em seus arquivos alguma referência ao que eu havia solicitado.

Ela era jovem. Devia ter pouco mais de vinte anos. Depois de vasculhar os arquivos da sua memória, sem sucesso, pediu-me licença e dirigiu-se a outra funcionária, mais velha, cochichou algumas palavras. Em seguida, veio em minha direção com a menção negativa de que há muito tempo que eles deixaram de vender por falta de quem os comprasse. O mesmo aconteceu em outros estabelecimentos comerciais do mesmo seguimento. Os papéis de cartas, que outrora eu colecionava em pastas, e trocava com as colegas na hora do intervalo para o lanche na escola, haviam sumido das prateleiras das livrarias e papelarias.

Dei-me conta que o mundo digital tinha nos tirado o prazer de escrever cartas de próprio punho, em papeis especiais e perfumados. Senti uma profunda tristeza ao pensar em pegar uma folha fria e vazia de papel ofício e escrever-lhe sobre a importância da sua crônica “Esperança”, publicada no site literário Recanto das Letras, na construção de uma das minhas crônicas, “A esperança produz sonhos”, que está no meu primeiro livro “ As esquinas da minha existência”.

Como eu poderia expressar a minha emoção e gratidão em qualquer papel? Sim, eu sei, a tecnologia serve para aproximar pessoas, eu poderia usar o e-mail. Em segundos, meu agradecimento estaria na caixa de e-mails do destinatário. Porém, com uma grande diferença: ele, o e-mail, seria incapaz de retratar a beleza de uma carta escrita à mão, com todo o tempo e dedicação, emoção e paixão de uma carta desenhada com caneta especial – Dourada, presente do nobre colega, responsável por eu ter acreditado ser uma cronista, Raimundo Antônio – e, ao concluí-la, salpicada de perfume floral, dobrada com perfeição, envelopada e endereçada, com muito carinho, a quem se tem admiração.

Decidi, vou construir o meu próprio papel de carta e, como costumo dizer, sangrar em letras minhas dores e amores.

Obrigada pelos seus ensinamentos, mestre!

 

 

 

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora do livro As esquinas da minha existência, flaviarruda71@gmail.com

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