Armageddon

Antonio Delfim Neto

No Novo Testamento há uma referência a Armageddon, onde as forças do bem e do mal travarão a batalha final que decidirá o fim do mundo. Pois bem: em Brasília, na segunda semana de março de 2016, iniciou-se a batalha final!

Dilma convocou sua última reserva, o ex-presidente Lula, nomeando-o para chefe da Casa Civil, com a esperança de que ele reagrupará o exército que ela dispensou!

Por outro lado, a Câmara dos Deputados, numa resposta rápida e eficiente mobilizou-se e deu início ao processo de impeachment.

Nossas incertezas são produzidas por um processo político-econômico que se auto-alimenta e só se mitiga com a arbitragem, cada vez mais frequente, do STF, o que, revela dificuldades intransponíveis no tratamento civilizado, necessário e insubstituível que deve existir entre os poderes Executivo e Legislativo.

A consequência mais grave do ilusório presidencialismo de coalizão, que nem preside nem coaliza, é um desarranjo estrutural das finanças públicas no meio de uma recessão que provavelmente será a maior da história do Brasil.

Os ministros da Fazenda escolhidos por Dilma propuseram soluções razoáveis, mas ela sempre lhes deu apoio relativamente descompromissado, porque contrariam o pensamento mágico do seu partido, o PT, que continua insistindo na solução bem sucedida na crise de 2009, quando as condições eram completamente diferentes das atuais. Repeti-la, hoje, seria insensatez.

A escolha de Lula, que é um negociador competente e pragmático, objetivou basicamente dar uma ordem unida ao seu partido, que é quem tem criado as maiores dificuldades para Dilma.

Ele tem condições para fazê-lo, porque o PT sabe que sem a sua liderança carismática será apenas um pequeno partido reacionário a serviço de um sindicalismo míope a serviço do corporativismo do funcionalismo público e, demagogicamente, contra o progresso tecnológico, que no longo prazo é o verdadeiro instrumento do aumento da produtividade do trabalho.

Em condições normais de pressão e temperatura, a nomeação de Lula, provavelmente, teria condições de reconstruir a formidável base parlamentar que a inabilidade política do governo destruiu.

Infelizmente, o início do processo de impedimento da presidente parece tê-la tornado tarde demais.

Depois dos “grampos” e da resistência legal à sua escolha, a situação está longe das condições normais de pressão e temperatura…

Será difícil provar a intencionalidade de um ato subjetivo como a nomeação de Lula, mas a situação é muito grave e poderá, eventualmente, reforçar os motivos de impeachment.

Antonio Delfim Neto – Ex-ministro da Fazenda – (Artigo publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em 23/03)

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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