ABANDONO INEXPLICÁVEL – 

Rua Seridó, Petrópolis, por trás do Atheneu Norte-Riograndense desaba o prédio do ginásio Sylvio Pedroza, orgulho esportivo da década de cinqüenta. Pontificou antes do Djalma Maranhão que precedeu o Humberto Nesi e tantos ginásios públicos e privados hoje espalhados pela capital. O Sylvio Pedroza tem a mesma importância histórica para a cidade quanto o estádio Juvenal Lamartine, inaugurado em 1929, para a prática pioneira do futebol. Ainda adolescente, assisti a disputa de partidas interestaduais de voleibol e basquete que levaram multidões ao ginásio e o Atheneu que era o único, à época, dentro das normas técnicas regulamentares. O futebol de salão nasceu praticamente ali e se difundiu depois em todo o Rio Grande do Norte. Foi um celeiro de craques nas três modalidades.

São mais de 50 anos de tradição, de história, de cultura esportiva que marcaram a vida de gerações. Tudo isso como está, hoje? Resposta: decaído, sem memória. Aliás, Natal é pródiga nos esquecimentos, omissões e negligências. Por exemplo: o prédio onde funcionou o antigo Liceu Industrial ou Escola Técnica que fica na avenida Rio Branco foi restaurado pela UFRN. Outros casarões antigos estão se desmoronando em silêncio, como túmulos antigos de cemitério cobertos de lôdo e desprezo. Visto de frente o ginásio Sylvio Pedroza parece sufocar os gritos e as emoções de antigamente. Os eventos culturais, as formaturas, os discursos dos patronos e paraninfos são também frias estatísticas do tempo, gravadas nas paredes enegrecidas pelo descuido das autoridades.

O ginásio Sylvio Pedroza foi inaugurado em 27 de julho de 1954. Consta o registro social que era uma amena terça-feira, sem calor e poluição. A sua capacidade chegou a oitocentas pessoas nas arquibancadas. Segundo os estatísticos correspondia a dois por cento da população de Natal, estimada em quarenta mil habitantes no início da década de cinqüenta. A história do prédio é pobre em mudanças e preservação. Com o surgimento das novas praças de esportes nos bairros de Petrópolis e Lagoa Nova, os Caic´s, o ginásio esportivo de Petrópolis perdeu a majestade. Natal já exigia público nas dependências de doze a quinze mil espectadores. O processo de degradação física atingiu um ponto tal que, somente em 1990, programaram uma demorada e sofrida reforma, paralisada várias vezes por falta de verba e de verbo também. Falhas lamentáveis foram consignadas e até, em 2003, denunciadas pela imprensa local.

Depreende-se que, para o ginásio esportivo Sylvio Pedroza não há prioridade de conservação. O edifício geme sob o peso da negligência e das emoções de antigamente. “É um prédio velho. Deixa cair”, dirá algum técnico modernista, especializado em “cultura, educação e esporte”. Não se apercebe que duas questões são primordiais: o retorno da utilização dos serviços do ginásio para os alunos do Atheneu e o resgate da memória perdida, como se os desportos não constituíssem também a história de um povo.

 

 

 

 

 

 

Valério Mesquita – EscritorMesquita.valerio@gmail.com

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