A CRUEZA DO BRANCO… – Flávia Arruda

A CRUEZA DO BRANCO… –

A folha branca na tela, ou no bloco de notas, é implacável. Ela escancara a ausência, o vazio onde deveriam florescer as ideias. O escritor a encara, no caso eu, sentindo o peso da tarefa iminente, no entanto, a mente parece um deserto tórrido, rachado pela falta de palavras. Sim, eu sei, há muito para dizer, o mundo grita com tantas histórias, mas nenhuma delas encontra eco dentro dessa minha cachola. A inspiração sumiu, evaporou como água em dia de sol forte.

O prazo aperta, as horas correm freneticamente, a obrigação paira. A cada minuto que passa, a pressão aumenta e as palavras se recusam a surgir. É, de fato, frustrante observar a própria impotência diante dessa tela muda. A mente divaga, buscando qualquer escape dessa tortura criativa. Nada surge diante do teclado com suas inúmeras possibilidades de digitar palavras, frases, parágrafos… Para quem não sabe, eu também não sabia até pesquisar no Google, a média de digitação por minuto é de 41,4 palavras em português, dependendo da memória muscular do indivíduo, mas, tudo depende de mim e das minhas criações literárias. O oco permanece.

E aí, eis que surge a tentação irresistível: abandonar a luta inglória e mergulhar em outro universo. Correr léguas de distância do meu espaço de trabalho, acender um cigarro (mesmo que imaginário) e ligar a televisão. Buscar refúgio nas tramas intrincadas de um bom suspense policial. Ali, há lógica, um problema a ser resolvido, pistas a serem seguidas. O detetive, com sua perspicácia, desvenda os nós da narrativa, oferecendo uma satisfação que a página em branco teima em negar. Escritora que nada! Acho que vou enveredar pelas bandas da investigação, espionagem, agente do FBI.

Enquanto isso, a batalha dessa jovem cronista- de meia idade- é interna. O mistério é descobrir como romper essa barreira invisível que impede o fluxo das palavras, dos pensamentos em sua concretude. Não há assassino ou álibi, apenas a sensação paralisante de não conseguir começar, quiçá terminar. A autocobrança se torna uma sombra constante, sussurrando dúvidas e minando a confiança. Ainda penso em qual filme assistir.

Mas, contudo, porém, todavia, a esperança reside naquela pequena fagulha que teima em não se apagar. Talvez, em meio à procrastinação consentida, enquanto os olhos acompanham os lances do investigador na tela, uma ideia germine. Vai que a aridez do branco se transforme, enfim, em um terreno fértil para as palavras. E que o suspense da página vazia termine com a alegria de ver a história tomar forma. Que o enigma seja desvendado!

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 5,1200 DÓLAR TURISMO: R$ 5,3160 EURO: R$ 5,9460 LIBRA: R$ 6,9280 PESO…

4 dias ago

Brasil tem 2 milhões de pessoas que trabalham por meio de aplicativos

Cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos (apps) no país em…

4 dias ago

PONTO DE VISTA ESPORTE – Leila de Melo

  1- O garoto potiguar Davi Lucca, de 14 anos, assinou contrato de formação com…

4 dias ago

Detento da Penitenciária Rogério Coutinho Madruga foge de UPA na Grande Natal

O detento Matheus Phelipe Constantino da Silva, de 27 anos, da Penitenciária Estadual Rogério Coutinho Madruga…

4 dias ago

Sesc oferece 1.280 exames gratuitos de mamografia e preventivo em Mossoró; veja como participar

O Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Norte (Sesc RN) vai oferecer 1.280 exames…

4 dias ago

Empresas são condenadas a pagar R$ 3 mil após manterem cobrança não reconhecida em cartão de crédito

Uma instituição financeira e uma plataforma de comércio eletrônico foram condenadas a pagar, de forma…

4 dias ago

This website uses cookies.