VOVÓ EMÍLIA

Minha avó era uma figura excepcional. Total liderança dentro de casa. Meu avô aceitava isso tranquilamente. Tinha a casa organizada e tudo funcionando à contento. E eu, que passava praticamente todos os fins de semana com eles, nunca vi ou ouvi uma discussão entre os dois, por menor que fosse.

Como todas as mulheres daquele tempo, não tinha tido muito estudo. Claro, sabia ler e escrever, conhecimentos básicos que eram dados as mulheres de então, mas se aprofundou por iniciativa própria, lendo muito. Isso ajudou a fazer com que os filhos se formassem. Às mulheres, além do usual, as fez estudar na melhor escola de Natal daquele tempo, o Imaculada Conceição.

Também as fez estuar música, e  tanto minha mãe como minha tia Maria Vitória (Toia), tocavam piano.

E era versátil. Entendia de tudo um pouco e, no que se referia à saúde da família, sabia de tudo. Médico era um negócio complicado naquele tempo, e ela muitas vezes “receitava” os filhos e o marido. Tinha uma paixão especial por homeopatia. Lembro-me que tinha uma caixa de madeira, do próprio fabricante da homeopatia, onde mantinha o seu estoque, para tudo que era doença.

Eu mesmo tomei muita homeopatia. Um resfriado mais forte, uma “dor de barriga”, um pouco de febre, lá  vinha ela com o homeopatia que achava apropriada para o caso. Nesse tempo, essa medicação estava no auge. Minha impressão é que ela comprou a caixa com todos os vidros de remédio para as mais diversas doenças, diretamente do fabricante. Lembro que eram embalagens originais, e se acomodavam na caixa com facilidade. No local onde ficava o remédio, havia uma descrição dele e dizendo para o que servia. Eram comprimidos pequenos, redondos, e se dissolviam rápido na boca. E deviam funcionar, pois os meus males, e de todos os outros “clientes” dela,  passavam com rapidez.

Tinha suas idiossincrasias. Fumava muito, um charutinho fortíssimo feito de fumo preto, e comprava um pacote com vinte por um vintém. Muitas vezes fui comprá-los na bodega da esquina, e sempre arriscava uma graninha no jogo do bicho. Tinha um medo enorme de trovão e relâmpago, e se refugia na rede, toda coberta, durante essas ocorrências. Naquele tempo chovia muito mais em Natal, e as trovoadas eram comuns.

De família católica tradicional, tinha um irmão padre, não perdia a Missa, e ainda ajudava na manutenção da Matriz. Morava muito perto, na Vigário Bartolomeu quase esquina com a Praça João Maria, uma curta caminhada até a igreja. Mas, não insistia com nenhum dos filhos, ou comigo, para fazerem como ela. Dificilmente ia a igreja com ela.

Tanto meu avô quanto ela eram de 1875. Vovô morreu em 1950, com 75 anos. Ela sobreviveu a ele e veio morrer com cem anos. Já não via (a minha impressão hoje é que era catarata, mas não havia operação, pelo menos em Natal), não escutava (também os auriculares hoje comuns não existiam por aqui), mas continuou a conversar e fumar seu charutinho até os últimos momentos.

Gostava  muito de minha mulher, Ione, e costumava passar dias em nossa casa, o que nos deixava felizes, pois gostava muito de conversar e animava a casa. Nos deixava saudade quando voltava à casa de Toia, com quem morava. Quando morreu, eu morava em Washington.

 

 

 

 

 

 

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN, dandrade@dmandrade.com.br

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