A VOLTA É QUE FOI DEMAIS… –
Você já teve a sensação que o caminho de volta foi bem mais perto?
Essa experiência parece que nos acompanha desde a infância quando saíamos para um picnic ou qualquer viagem, e debruçados na janela do ônibus, trem ou carro particular, entregávamos nosso olhar às margens da estrada – tudo passando tão rápido, mas que nossa mente captava com tamanha nitidez todos os detalhes.
Tudo verdinho ou não. À medida que a paisagem urbana ia cedendo espaço aos campos e lagos, cercas e porteiras, das placas de “boa viagem” a “sejam bem-vindos”, o nosso espírito afogado pela expectativa em chegar ao destino, fazia com que, mesmo com a velocidade do tempo, expressássemos a famosa pergunta: tá perto?
Claro, a resposta tão clássica e já sabida “Tá chegando”, não era suficiente para em instantes replicar: e agora tá perto?
A nossa eficiência em estimar a duração da viagem, mesmo por caminhos nunca dantes percorridos e, sem nenhum “ponteiro” sendo perseguido pelo desejo da pressa, era de fazer inveja a qualquer ‘GPS’ utilizado na atualidade.
Quando na volta, aquele caminho que guardava tanta ansiedade de chegar, agora parecia tão familiar, que dava para ir dando “baixas” nos locais e detalhes que gravamos na ida: já passamos aquela ponte, já passamos a igrejinha, já estamos perto da pracinha que o ‘carro’ parou, enfim.
O certo é que quando menos se esperava, eis que tudo à margem e, através do para-brisa nos dava a sensação de que estava próximo de chegar em casa. Era como qualquer brinquedo do parque de diversões, que ao acabar o tempo da ‘alegria’, gradativamente vai diminuindo a velocidade, até parar.
Não nos faltava a surpresa: a volta foi mais curta que a ida.
Simples: na volta, não havia ansiedade alguma. Toda nossa expectativa foi ‘gasta’ na expansão dos limites que a mente, através do seu mapa de exploração territorial, foi se apropriando, a tal ponto que no retorno, tudo já era velho conhecido.
E como ocorre em nossa “viagem” na trajetória da vida?
Aparentemente nosso caminho, na forma como se apresenta aos nossos olhos, só tem ida. No entanto, não nos falta instantes em que nos deparamos por indagações e percepções de que “já passei por esse caminho”. Aparenta tão conhecido que na maioria das vezes percebemos que a familiaridade daquele lugar, daquele trajeto, já fora percorrido tal e qual. Ás vezes a sensação passa despercebida, em outras, sentimos que até as mesmas pessoas que ali estão também estavam na outra “viagem”.
Em mim, essa apreensão é tal que fico rebuscando na prateleira da vida se sim, quando e por que aquela experiência atual, me remete como antes vivenciada.
Não me atenho, aqui, a nenhum aspecto científico ou de religiosidade, mas puramente emocional.
Sabe aquela sensação gostosa de viajar na janela com o vento esvoaçando seus cabelos e ressecando seu olhar de tanto estar atento ao caminho novo?
Afinal o caminho de volta ao nosso lar, é sempre reconfortante. Pergunte a qualquer viajante qual o melhor momento da viagem e certamente terá como resposta: chegar em casa!
A fronha velha, o lençol fininho, o chinelo macio…
A ida foi boa, mas a volta é que foi demais.
Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil e Consultor (josuacosta@uol.com.br)
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