A VIÚVA –

A viúva Doralice era uma mulher pobre e bonita, de trinta e oito anos. Morava com os cinco filhos menores numa casa simples, na periferia de Natal. Todas as noites, esperava que os filhos adormecessem, para sair de casa. Só voltava quando o dia já estava quase amanhecendo. Mais de uma vez, um vizinho a viu sair de casa, tarde da noite, e desconfiou de que ela estivesse indo se encontrar com algum amante. Estava claro que era isso! Uma mulher bonita, jovem e viúva, deveria estar farreando muito e aproveitando sua liberdade. Talvez, até recebendo dinheiro de homens ricos! Esse era o pensamento do vizinho.

A notícia se espalhou na vizinhança, que passou a tratar Doralice com desdém e muita distância. Ninguém queria aproximação com ela, e as pessoas não deixavam que os filhos brincassem com os seus.

As crianças, mesmo pobres, andavam limpas e arrumadas. Estudavam numa escola pública municipal. Durante o dia, enquanto os filhos estavam na escola, a mulher lavava e passava roupa de pessoas que moravam em outro bairro. Já possuía uma freguesia fiel, que ia levar e apanhar a roupa. O pouco dinheiro que apurava servia para complementar a ínfima pensão, por morte do marido, que recebia do INSS.

Quando já era tarde da noite, a viúva saía para o seu encontro secreto, dando muito o que falar às más línguas.

Certa vez, Doralice adoeceu, contraindo uma bronquite, o que fazia com que passasse o dia e a noite tossindo muito, a ponto de incomodar os vizinhos. Entretanto, mesmo doente, não deixava de dar seu passeio noturno, depois que os filhos se deitavam para dormir.

Numa dessas noites de muita tosse, a mulher saiu para o passeio costumeiro. O vizinho mais linguarudo resolveu segui-la de longe, sem que ela o visse. O homem percebeu que a viúva levava uma grande sacola vazia. Onde havia um depósito de lixo, ela parava, abria e retirava sempre alguma coisa aproveitável para levar. Ia colocando na sacola o que encontrava de gêneros alimentícios, ainda em perfeito estado. Depois de algum tempo, a sacola estava cheia.

O vizinho ficou chocado com aquela cena e sentiu vergonha de si mesmo. Chorou de remorso, pelo mau juízo que tinha feito dessa pobre mãe.

Comprovadamente, a viúva era uma mulher pobre e honesta, que não mendigava, mas que varava a noite arrecadando dos depósitos de lixo o que os ricos jogavam fora.
Como uma leoa, essa mãe guerreira lutava, desesperadamente, pela sobrevivência dos filhos, procurando dar-lhes, mesmo na pobreza, uma vida digna, longe da maldade humana.

 

Violante Pimentel – Escritora

As opiniões emitidas são de responsabilidade dos colaboradores
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