VIRAMUNDO 27 –

Elisiário Soares Marinho, conhecido como Lisinho do Banco, trabalhava numa agencia em Almino Afonso, cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte. Ele não era gerente mas o funcionário mais requisitado pela clientela que confiava nele pra fazer aplicações, empréstimos e abrir contas.

Na  época não havia internet e ele ficava ligado na Rádio Jovem Pan, de São Paulo, ouvindo as notícias e comentários dos seus jornalistas. Era antenado com tudo o que acontecia no mundo, principalmente o financeiro.

Ele teve uma premonição e sacou todo o seu dinheirinho que estava na poupança onde, no dia seguinte, houve um confisco das contas bancárias, pelo governo federal. Um caos. Muita gente se viu, de repente, empobrecida e chegou a haver até suicídio.

– Seu Luisinho e agora? Cadê meu dinheiro?

– O governo bloqueou.

– O que é isso, esse tal de “bloqueou”?

– As contas irão ficar inativas por um tempo até haver uma recuperação financeira do Planalto.

– Como é que eu faço agora pra pagar minhas contas?

– Não faz nada. Espere até o dinheiro ser liberado.

– Vai demorar?

– Vai. Não sei quanto tempo, mas vai.

– Quer dizer que aquele empréstimo que eu fiz só vou pagar quando o governo devolver minha grana?

– Não. Se você não pagar o que deve ao banco, vamos ter problemas.

– Mas, Lisinho, o que eu faço?

– Todo mês eu empresto a você o que precisa e quando seu dinheiro for desbloqueado, você me paga.

– Com juros?

– Sim. Dez por cento ao mês. Quer?

Liberalino ficou triste com a notícia e resolveu esperar. Não aceitou a “gentileza” do amigo. O juro era muito alto.

Lisinho do Banco começou a ter problemas com seus devedores. Ele emprestava dinheiro e o pessoal falou  que iria fazer com ele o mesmo que o Banco fez: bloquear o pagamento.

– Não façam isso. Vou quebrar, desse jeito.

– Meu amigo, o seu Banco me quebrou. Agora é a nossa vez de quebrar nossos credores. Não acha correto?

– Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você me deve como também eu devo ao Banco. Posso até ser demitido, se fizer isso.

– É bom porque você vai receber uma boa indenização.

– Não, porque “justa causa” não dá muito direito ao despedido.

– Vamos negociar os juros?

– Como assim?

– Eu pago o saldo do capital emprestado, sem juros. Quito minha dívida e ficamos livres.

Lisinho  ficou realmente preocupado com essa ideia de dispensar juros. A receita foi diminuindo e ele vendeu a casa e o carro pra conseguir sobreviver. A mulher voltou a ensinar e o filho de 15 anos teve que ir trabalhara numa lotérica, meio expediente, pra se manter.

A vida de Lisinho do Banco passou a justificar seu apelido. Ele  não teve dinheiro bloqueado mas o que sacou antes, por sorte, foi desaparecendo com a agiotagem sem retorno e suas despesas.

– Senhor Elisiário Soares Marinho, por contenção de despesas o Banco está demitindo o senhor, sem justa causa.

Um camarada sem emprego numa idade pequena do interior vai sobrar tempo pra duas coisas: cabaré e jogo. Não deu outra, separou da mulher, arranjou uma rapariga e foi embora pra Mossoró.

Encontrei ele na Churrascaria Gaúcha, sábado a tarde e na conversa perguntei: – Lisinho quem é a pessoa que você mais admirou e se tornou ídolo?

– A economista Zélia Cardoso de Melo.

 

 

Jaécio Carlos –  Produtor e apresentador dos programas Café da Tarde e Tribuna Livre, para Youtube.

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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