Volta e meia flagro-me dedilhando teclas pretéritas. Saudosismo? Não. Nada de excessiva valorização do passado. Viagem no tempo? Pode ser. Para mim, deleitar-se com os bons momentos usufruídos na existência de cada um de nós, consiste no melhor exercício para amenizar o inclemente avançar dos anos de nossas vidas.

Trazer à baila a plenitude do movimento renovador da música popular brasileira, após a Bossa Nova, é uma dessas práticas. Vivíamos a repressão oriunda do regime militar iniciado em 1964, quando jovens rebeldes descompromissados com política e influenciados pelo rock n’ roll criaram a revolução musical que ficou conhecida como Jovem Guarda.

O som inovador de Elvis Presley, Roling Stones e de outros astros do iê-iê-iê – alusão direta à expressão yeah-yeah-yeah presente em sucessos dos The Beatles –  impregnou parcela de nossa juventude desengajada de greves e de protestos contra o governo instaurado no país.

Eram turmas de cabelos engomados e calças colantes em forma de boca-de-sino, com cintos e botas coloridos, que apregoavam paz e amor e faça amor não faça guerra. Patotas de linguajar próprio, botando pra quebrar, mas achando tudo um maior barato sem considerar nada russo, procurando manter a barra limpa.

Jovens cantores interpretando músicas leves e açucaradas, falando de amores ardentes, carangos, festas e brotos legais; utilizando letras fáceis de decorar emoldurando coreografias diferentes das usuais direcionadas para o público adolescente enfeitiçado pela onda em evolução.

A Jovem Guarda surgiu em 1965, na TV Record, em programa comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa definindo uma nova linguagem musical e comportamental no Brasil, que se tornou referência para adolescentes da época. Desde a forma de se vestir a gírias e expressões próprias criadas no embalo do movimento.

Além dos três titulares das jovens tardes de domingo, surgiram e se consolidaram na profissão e no cenário artístico nacional interpretes e compositores como Ronnie Von, Eduardo Araújo, Jerry Ariani, Sérgio Reis, Antonio Marcos, Márcio Greyck, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Lafayette e seu Conjunto, e outros a perder de vista.

Comenta-se que o nome que deu origem ao estilo popularizado nos anos 60, foi inspirado numa frase do revolucionário russo Vladimir Lenin: O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada.

Setores da crítica afeitos à Bossa Nova, consideravam o som da Jovem Guarda música alienada, não somente porque privilegiou a guitarra em detrimento do violão, mas, sobretudo, por manter àqueles jovens afastados da discussão política que sacudiu o Brasil nos primeiros anos da ditadura militar. O programa terminou em 1968, com o desligamento de Roberto Carlos da TV Record.

Sem prescindir de outros estilos musicais, ainda hoje sinto prazer ao ouvir as inocentes e alegres canções que transformaram a Jovem Guarda num dos maiores fenômenos nacionais do século XX.

Tudo isso bicho, aconteceu meio século atrás, e foi uma brasa, mora!

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil e escritor – jnsousa29@gmail.com

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