A VELHA PONTE DE IGAPÓ –

Quem atravessa o Rio Potengi, em Natal, pela ponte rodoferroviária presidente Costa e Silva, em direção ao oeste do Estado, nota, à sua direita, o esqueleto incompleto de uma estrutura metálica enferrujada pertencente a velha ponte de Igapó.

A ponte velha foi inaugurada no dia 20 de abril de 1916. A construção coube a um consórcio anglo-brasileiro durante o governo de Joaquim Ferreira Chaves, pela qual se pagou a quantia de 2 contos, 474 mil e 940 réis. Tratava-se da maior obra ferroviária do Norte e Nordeste do país.

Constava de vãos em treliças metálicas com 520 metros de extensão, que uniria as duas margens do rio Potengi. Todas as peças da estrutura foram moldadas em Darlington, na Inglaterra. Do mesmo local se originou o material para as construções das pontes Hercílio Luz (1926), em Florianópolis, e Florentino Avidos (1927), em Vitória.

A velha ponte atendeu a antigo anseio da população de regularizar o escoamento da produção das zonas salineira e açucareira do Estado para o porto de Natal, porque os trens da Estrada de Ferro Central, que ligavam o interior à capital, esbarravam na margem oposta do Potengi sem concluir a etapa final da viagem. Inaugurada, a ponte cumpriu o seu papel funcional durante 74 anos.

Em 1990, uma decisão precipitada de governo, apoiada em orientação tacanha e despropositada, resultou em leilão da obra de arte ferroviária para o reaproveitamento do aço, numa época em que o Brasil atravessava escassez do produto.

Não demorou muito tempo para suspenderam a operação de desmanche da ponte por se mostrar antieconômica, mas o mal já estava feito. Haviam desvirtuado um monumento histórico, quase secular, ao subtraírem 200 metros da melhor Engenharia ferroviária produzida no início do século XX.

O desastre acarretado com o desmonte de parte da velha ponte de Igapó revoltou o natalense, já acostumado com a imponência daquele símbolo de uma época. Porém, não ocorreu qualquer manifestação pública de protesto.

Houve, sim, uma voz coerente e isolada, nesse marasmo de falta de providências contra a agressão cultural a ser perpetrada pelo Estado. Partiu do colunista social Paulo Macedo, no seu espaço no Diário de Natal. O jornalista lançou a ideia de se estacionar um vagão-restaurante no vão central da ponte para explorar a cozinha regional nordestina.

Imaginava ele, que alguém posicionado sobre e no meio do rio Potengi, diante de paisagem diferenciada, desfrutaria de uma experiência única. Tal restaurante seria uma atração turística pela criatividade e ineditismo do empreendimento, e a ponte resultaria salva. Ao apelo fizeram ouvidos moucos.

Escaparam de destinos idênticos ao da velha ponte de Igapó, as pontes metálicas congêneres Hercílio Luz e Florentino Avidos. Tiveram a sorte de serem protegidas por dirigentes que souberam respeitar e preservar o patrimônio público histórico que possuíam.

Recuperadas, elas envaidecem catarinenses e capixabas, e são cartões-postais para turistas que visitam os seus estados. Enquanto isso o que restou da antiga ponte de Igapó, com 102 anos de existência, tornou-se um monumento à insensibilidade e ao desatino de determinados gestores públicos.

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil e escritor – jnsousa29@gmail.com

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Ponto de Vista

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  • Além de interessante o relato dos aspectos históricos sobre a construção da ponte de Igapó, aliada ao triste fim de uma importante construção daquela época, percebe-se também a insensatez dos administradores do estado norteriograndense, quando se viu repetir na demolição do estádio de futebol Machadåo para se construir no mesmo local o atual Arena das Dunas...

  • Em face desta oportuna crônica sobre a ponte de Igapó proponho que se estude a possibilidade da mesma ser reconstruída e ao mesmo tempo a criação de uma comissão permanente de pessoas interessadas para vigiarem estes aspectos dos elementos paisagísticos da cidade de Natal.

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