A MARRETA E O BOLETO – Flávia Arruda

A MARRETA E O BOLETO –

Por enquanto, a única coisa que realmente quebrei foi o porquinho de moedas. A marreta continua guardada no carrinho virtual da Amazon, a parede teima em permanecer firme, e a cozinha americana, essa velha conhecida, segue lá, implacável como sempre, me olhando com aquele ar de “você não sabe o que quer, né?”.

Vou fazer 55. Meio século e meia, aquela idade que parece um convite oficial para parar de morrer esbarrando em quinas, tropeçando em móveis planejados do tempo em que achávamos que espanhol era só na escola e que “open concept” era coisa da música. Quero uma ilha. Não aquela paradisíaca no Caribe, cheia de coqueiros e mar azul, mas uma ilha na minha cozinha, lugar para sentar, rir, beber um vinho. Mas, pela cotação que recebi da arquiteta, vai que minha tal ilha vire um arrozinho queimado, voto do boletão no final do mês.

O projeto até tem nome bonito: “Recomeço”. Na prática, minha planilha chama “Preciso de ajuda – urgente!”. A arquiteta sugere “humanizar os espaços”. E como não? Já chorei em cima da planta baixa, sentindo falta daquele cantinho que só eu entendia. Ela fala em minimalismo. Eu traduzo: minimalista é o que sobra no bolso depois do sinal para o pedreiro. Ela quer funcionalidade. Eu só quero conseguir chegar na panela de cima sem parecer uma atleta olímpica.

Quero tirar a parede que divide mais do que dever. Tire essa separação de mim e da sua casa. Cansei dessa cozinha que manda pedir licença para pegar água, que acolhe mais eletrodomésticos do que gente. Quero um espaço de verdade, onde caiba a vida acontecendo, com risadas soltas, vinhos derramados, papo mole e perna cruzada na ilha – sem exigir escada para alcançar o copo ali.

Chegando aos 55, a gente descobre que a burocracia não está apenas nos cartórios nem na papelada em duplicata. Está em ter uma sala enorme onde ninguém senta, uma mesa que pede oito cadeiras e abriga só dois ou três convidados, uma cozinha que mais parece prisão com grades invisíveis. Descubro que eu não quero espaço planejado para a vida ideal dos outros, quero espaço para a minha vida real, com minhas imperfeições e meus desejos.

Meu maior medo? Que, no final, esse projeto não saia do mundo digital e se transforme apenas numa renderização bonita na tela do computador, o único imóvel que eu possa “ter” à beira-mar sendo aquele apartamento virtual em 3D. Que meu epitáfio se transforme numa homenagem ao “bom gosto que nunca saiu do Canva.”

Reformar a casa aos 55 é como fazer terapia com cimento, tinta e poeira. É desmontar as paredes que construímos para agradar os outros, derrubar as molduras que mantivemos para parecer perfeito, abrir os espaços que antes fechávamos para não mostrar o que realmente sentimos. Descubro que quero essa tal ilha porque ela não julga se eu como de pijama, se a louça fica na pia até eu lembrar, se meus dias são um caos organizado.

O pedreiro? Ainda não tem data para começar. A marreta? Só existe em sonhos e nos muitos cliques que dei para adicioná-la ao carrinho, mas não finalizei a compra. A decisão, essa sim, está tomada: ou eu mudo a casa, ou a casa me muda. E, sinceramente, prefiro ter poeira no chão do que carregá-la no peito.

O orçamento está na fila de espera, assim como a coragem, que, vez por outra, some sem avisar. Mas persiste no ar, entre sonhos e contas, entre vasilhas na prateleira e desejos de mudança.

Se tudo der certo, no próximo ano, eu te convido para brindar na ilha nova, entre amigos e histórias com cheiro de tinta fresca. Se der errado, a gente se acomoda no balcão alto e inventa que aquela cozinha apertada é “conceito industrial retrô”, com direito a muitas risadas e piadas sobre reformas eternas.

Quase aos 55, aprendi que o que não vira obra boa vira boa piada. E não tem problema algum nisso. Desde que o riso tenha um lugar para pousar, para sentar e se sentir em casa.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim. crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista

Recent Posts

COTAÇÕES DO DIA

DÓLAR COMERCIAL: R$ 4,9100 DÓLAR TURISMO: R$ 5,1170 EURO: R$ 5,7510 LIBRA: R$ 6,6940 PESO…

3 horas ago

Desenrola 2.0: pessoas com salário de até R$ 8.105 poderão renegociar dívidas; saiba mais

O programa de renegociações de dívidas do governo federal, o Novo Desenrola Brasil, lançado nessa…

4 horas ago

Morre terceira vítima do acidente aéreo com avião que bateu em prédio em BH

O empresário Leonardo Berganholi, de 50 anos, morreu nessa segunda-feira (4), após não resistir aos ferimentos…

4 horas ago

Alckmin espera diálogo e “boa química” em encontro entre Lula e Trump

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, disse nessa segunda-feira (4), na capital paulista, que espera…

4 horas ago

Reservatórios ultrapassam 50% da capacidade total no RN; veja quais atingiram 100%

Os mananciais ultrapassaram 50% da capacidade total de reserva hídrica do Rio Grande do Norte. O dado…

4 horas ago

Entenda o novo Desenrola Brasil, lançado hoje pelo governo federal

O governo federal lançou nessa segunda-feira (4) o Novo Desenrola Brasil, programa que busca ajudar…

4 horas ago

This website uses cookies.