VEIO DO SERTÃO LÁ DO CABUGI – Gleydson Batalha

VEIO DO SERTÃO LÁ DO CABUGI –

Estamos chegando às vésperas de mais um ano eleitoral, e como sempre os partidos políticos já começam a organizarem as suas nominatas, fazer às contas de quantos vereadores cada agremiação política fará, bem como reuniões, palestras com advogados, marqueteiros e aulas de oratória com profissionais capacitados. Além de tudo isso os jornais e rádios já inicia a contratação de institutos de pesquisas para saber a intenção de votos do eleitor para os cargos majoritários e proporcional, e aos poucos as pré-campanhas vão se desenhando.

Aproveitando esse clima vou voltar no tempo, especificamente ao ano de 1960, onde aconteceu no nosso estado a mais bela campanha política que os potiguares já presenciaram. De um lado, um jovem deputado federal, e do outro um grande jurista, intelectual e bastante respeitado na Câmara dos Deputados, estou me referindo a Aluízio Alves e Djalma Marinho.

Tudo começou na eleição anterior quando o deputado federal Aluízio foi reeleito sendo o mais votado de toda a chapa. A partir daí começaram às especulações sobre uma candidatura sua ao governo do estado. Esse ato foi o estopim para o rompimento oficial com o governador Dinarte Mariz, que não queria a candidatura do antigo aliado ao governo do RN. Então no dia 22 de maio de 1960 Aluízio Alves fez o seu primeiro comício na Praça Gentil Ferreira no bairro do Alecrim ao lado do seu vice monsenhor Wafredo Gurgel. Surge a partir daí   A CRUZADA DA ESPERANÇA que foi o início da maior manifestação pública no Rio Grande do Norte.

Vou relatar neste artigo alguns acontecimentos que surgiram espontaneamente no meio do povo, e foram estrategicamente utilizados pelo candidato de oposição. O primeiro exemplo disso foi o apelido de “Cigano” que começou em Pau dos Ferros quando o “ candidato do governo” (era assim que Aluízio chamava Djalma, por causa da impopularidade de Dinarte Mariz) fez um comício na véspera da chegada de Aluízio na cidade e falou que tinha uma vida organizada, com escritório de advocacia em Natal e etc., enquanto Aluízio andava pelo estado, de dia e de noite, sem almoçar ou jantar e dormia nas estradas.

Os amigos contaram o episódio e falou que o povo de Pau dos Ferros estava aguardando-o para uma resposta no mesmo tom. Quando Aluízio chegou no município, subiu no palanque, pegou o microfone e disse: “Pau dos Ferros, o cigano chegou”. A partir daí ele começou a ler as mãos do povo, como se fosse “cigano”. Não demorou muito para surgir a música “Cigano Feiticeiro” e cair na boca de todos. Outros episódios aconteciam na medida que os comícios cresciam, os adversários estavam impressionados com a adesão popular ao opositor, e começaram a desvalorizar as multidões, dizendo que a maioria era formada por ‘gentinha” analfabeta e “crianças”.

Com uma sensibilidade de um “Cigano Feiticeiro”, Aluízio começou a se dirigir ao povo dizendo: “minha querida gentinha”, e novamente a crítica dos adversários saiu pela culatra e este termo “gentinha” se tornou um tratamento carinho do Bacurau para com a sociedade. A proposito o termo “Bacurau” surgiu por que Alves não tinha um horário certo para chegar às cidades, e quase sempre chegava nas madrugadas, por isso o nome Bacurau que é uma ave com hábitos noturnos bem conhecida no interior. E a cada dia crescia a campanha com a adesão voluntaria da população principalmente os mais pobres.

Outro caso que surgiu espontâneo foi a cor verde, Aluízio estava concedendo entrevista à um programa de rádio, quando uma ouvinte o indagou “ Se a campanha se chama CRUZADA DA ESPERANÇA, por que o senhor não adota a cor verde? Então na mesma hora, Aluízio determinou que a cor usada seria o verde, e assim aconteceu. O povo gostou a tal ponto, que se esgotaram rapidamente os tecidos verdes no comercio da capital e do interior. Foi quando mais uma vez usando sua visão política Alves pediu aos eleitores para arrancar galhos de arvore para substituir os lenços e bandeiras verdes e assim o povo fez.

Os comícios e passeatas atravessavam a noite e a madrugada, iniciando geralmente às 20 horas, e indo até 6 da manhã. Depois, no sábado à noite, dia e noite do domingo, até 6 da manhã. E, assim foi sendo improvisada fatos da campanha, sem show, sem recursos só com Deus e o povo.  Uma outra inovação, talvez a maior de todas foi a criação do TREM DA ESPERANÇA.

A campanha alugou uma locomotiva à rede ferroviária e a transformou em um excelente veículo de comunicação do candidato, que foi equipado com um sistema de som acoplado ao trem com quatro bocas-de-ferro que tocava continuamente músicas da campanha. Eu poderia enumerar vários fatos que ocorreram em 1960 como: O primeiro marqueteiro contratado para uma campanha política, a primeira pesquisa do IBOPE, o dia que as crianças votaram e muito mais. Está em minha memória boas lembranças ao lado do velho Bacurau, que aprendi a admirar através da influência do meu pai Edinor Batalha que participou ativamente da campanha de 60.

Tenho em meu currículo a alegria em ter sido Presidente da Juventude do então PMDB nomeado por ele, como também à carta que ele fez de próprio punho pedindo voto para mim quando fui candidato vitorioso ao DCE-FACEX, onde ele termina a carta dizendo, “ Confie nele, eu confio”. Encerro este artigo cheio de emoção citando a primeira estrofe da MARCHA DA ESPERANÇA de Edmundo Andrade que se tornou um hino até hoje que diz “ Aluízio Alves veio do sertão lá do Cabugi para sanar o sofrimento do seu povo”.

 

 

 

Gleydson Batalha – jornalista e apresentador do programa O Melhor da Noite

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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