O absurdo da unificação das eleições

      Públio José

                        Toma corpo Brasil a fora a ideia absurda da unificação das eleições. E, o que é pior, em um momento como esse, no qual – repleto de dificuldades de toda ordem – o Brasil enfrenta um tempo de escuridão política, marcado pela ausência de mentes lastreadas ética e moralmente para a discussão dos temas que envolvem a vida nacional. É exatamente numa pedreira dessas que se observa prosperar um projeto de consequências tão desastrosas. Do ponto de vista da argumentação, pelo menos até o presente momento, nenhuma das cabeças que defendem as tais eleições unificadas conseguiu ultrapassar o terreno da mediocridade retórica e da pobreza política. Ora, analise-se uma das colocação que fazem os tais: de que as eleições de dois em dois anos estão se tornando caras demais para o Brasil. Pelas barbas do profeta!!!!!!, como diria aquele narrador esportivo. E, por acaso, o processo eleitoral é o culpado disso?

                        O culpado, além dos homens de mente corrompida, e sem estatura moral para se fazer presente à qualquer tipo de disputa, é o sistema eleitoral corruptor e caro em si mesmo. Culpada é a Justiça Eleitoral que demora até dez anos para julgar as questões que emergem da disputa eleitoral – um atraso que só incentiva a transgressão e a impunidade. Além do mais, ao invés de se celebrar um processo democrático que se renova e se fortalece a cada dois anos, joga-se no colo do processo eleitoral o custo das eleições no Brasil. Que, além de caras, reconheçamos, carregam penduricalhos esdrúxulos, como as coligações partidárias e o famigerado coeficiente eleitoral. Por acaso, esses tais, que defendem a unificação, já pararam para analisar o verdadeiro caldeirão de safadezas e malfeitos que se apoderou do processo político brasileiro por conta das coligações partidárias? É quase certo, certíssimo, não chegaram a tanto.

                        Outro perigo que ronda as eleições é a mania de se promover a extinção pura e simples das instituições, ao invés de se condenar os malfeitores que nelas se instalaram. Lembram-se da Sudene? Envolvida na onda da corrupção, viu-se tragada pelo torvelinho da extinção porque, aos olhos dos dirigentes, era mais fácil passar-lhe a régua do que condenar quem lhe raspara o cofre. Vê-se, assim, que o negócio é matar o animal ao invés de curar-lhe a doença. E a história de que há eleições demais? No parlamentarismo, eleições podem ocorrer de seis em seis meses, de ano em ano. Basta que o Parlamento aprove um voto de desconfiança que o governo cai e novas eleições são convocadas. Na Alemanha, no Japão, paises de democracia sedimentada, de eleições parlamentares de quatro em quatro anos, já houve casos de eleições sucessivas em curtos períodos pela busca de soluções governamentais – à luz da democracia.

                        Enquanto isso, no Brasil, onde a democracia tem pouco mais de três décadas, debiloides de plantão diagnosticam que o país tem eleições em demasia. É de lascar! Na verdade, o que o Brasil precisa é de uma análise séria, profunda, em seu sistema eleitoral que desague numa reforma política com início, meio e fim. E com uma Justiça Eleitoral ágil, um Ministério Público ainda mais atuante – e uma legislação que puna com rigor quem incorrer em malfeitos. Porém, caso venha a unificação (Deus nos livre!), como ficará o debate numa disputa na qual o eleitor terá de optar de vereador a presidente da república? E que espaço sobrará para a discussão de temas municipais diante da complexidade das questões estaduais e federais? Jogar-se o debate de problemas municipais para as calendas é democrático? Em busca de economia, extirpa-se o ente municipal do debate? Pobreza mental, cara pálida. Mental.

 Públio José – jornalista – (publiojose@gmail.com)

       

 

   

Ponto de Vista

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