Vicente Serejo

Outro dia, e era uma manhã esplêndida de um mar azulando na distância, andava eu com meu paletó de linho branco, a única nobreza que restou desta vida que poderia ter sido e que não foi, como no poema de Manuel Bandeira. Aquele que na canção de Fagner e Belchior, até o mesmo passado, lá no campo, ainda era flor. E notei discretos olhares lançados de soslaio, como nos velhos romances de outrora, atraídos pela brancura antiga e impecável ali diante de tantas roupas tão escuras e austeras.

Quando saí da solenidade e fui andando sozinho na direção do carro, a cada passo, remoía, comigo mesmo, a saudade do meu pai. Quando fui eleito para a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras seu sonho era o filho mais velho tomar posse com uma roupa de linho, e ele também queria ir assim. Fizemos as roupas, mas demorei quatro anos e ele adoeceu. Do sonho da tarde de festa ficou o remorso. A posse foi de noite, roupas escuras, o terno de linho esquecido numa ombreira do armário.

Alguns anos depois, quando meu pai fechou os olhos para sempre, fiz apenas uma exigência aos meus irmãos: que Seu Severino fizesse a longa viagem, aquela de nunca mais voltar, vestido com seu terno de linho branco. Na hora do adeus, ainda ajeitei um pouco mais o nó da gravata e afaguei o seu peito levemente. Todas as vezes que visto o meu, branco como o dele, ambos nascidos das mãos do meu velho amigo Xiquinho, acabo mergulhado na solidão tristíssima dos meninos quando órfãos.

E, no entanto, aquele paletó de linho branco que veste minha orfandade é também um pedaço da vida. Uma vez, convidado pela governadora Wilma de Faria para ser um dos oradores quando do batismo da Ponte Newton Navarro, fui com ele. O almirante, comandante do Distrito Naval, não tirou os olhos. Se já não bastasse, e como o sol era intenso sobre aquela Corveta ao meio dia e no meio do rio, levei na cabeça meu chapéu de palhinha, e discursei a braços soltos, como um orador de verdade.

Na saída, conversando no pátio da Base Naval a caminho dos nossos carros, Nilson Patriota disse a mim – ele que falou como presidente do Conselho Estadual de Cultura – que o almirante quis saber quem era aquele senhor de paletó de linho branco e chapéu de palhinha que falou sobre o rio e o mar da cidade. Até hoje lamento não ter tido a chance de dizer com toda a candura desse mundo: sou um velho poeta parnasiano, Almirante, que hoje cedo fugiu do Cemitério do Alecrim, e volta já.

Meu paletó de linho branco, aquele que até o mês passado lá no campo ainda era flor, tem sua história. Além de ser um instante de perfeição de Xiquinho na bela arte de sua nobre artesania, como dizem os espanhóis. É tanto que outro dia levei o paletó para ajustar um detalhe, mas avisei ao próprio Xiquinho: Cuidado! E justifiquei: Você não faz outro igual nem acha um linho assim, lavado e macio como esse. Ele riu. E esnobou: ajustou sem deixar nem a marca do que fez.

Vicente Serejo – Escritor e Jornalista

Ponto de Vista

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