UM PRESENTE DA UCRÂNIA –

O nosso país tem sido historicamente a terra prometida para imigrantes de diversas partes do mundo: italianos, japoneses, árabes, alemães ‒ dentre eles muitos judeus. Agora estamos recebendo, nem sempre de braços abertos, gente sofrida da Venezuela e do Haiti.

Muito nos beneficiamos dos novos patrícios. Aprendemos com seus saberes, costumes, linguagem, afetos, a cultura de outros povos.

A Ucrânia nos deu um presente inestimável: Clarice Lispector. Tornou-se brasileira por desejar, vivência, sentir-se, amor. O Brasil ganhou uma das mais importantes escritoras do século XX e de toda sua literatura.

Com dois meses de idade (1920), os seus pais, temerosos dos pogroms, perseguição aos judeus, a trouxeram para o Brasil. O admirável poeta Assis Câmara dedicou-lhe uma bela Ode. O primeiro quarteto: “Um novo amanhecer oferta claridade / À escuridão do ódio e da perseguição; / No choro da criança, a voz da liberdade / Encontra, em outra pátria, a consolação”. Afinal, ela veio a construir sua vida em solo venturoso.

Seus pais, em Maceió, aportuguesaram seus nomes para Pedro e Marieta, a menina Haia, que significa Vida, tornou-se Clarice. Ao completar 3 anos, a família mudou-se para o Recife, onde viveu até os 12 anos, tempo suficiente para proclamar sua pernambucanidade. Depois, fixou-se no Rio de Janeiro, tornando-se uma mulher de beleza exótica, fascinante.

Clarice sofria por ter passaporte russo emitido por autoridade da Revolução Comunista imperante. Seu sotaque era nordestino, mas por defeito de dicção, língua presa, atribuíam-lhe a condição de estrangeira. Em verdade, “o presente” passou a ser de papel passado, sem qualquer vínculo com o passado, sem lembrança, mas era juridicamente estrangeira.

Pelo fato mesmo, em 1942, escreveu ao Presidente Getúlio Vargas dizendo ter 21 anos de idade e igual tempo de Brasil. E mais: “que não conhece uma só palavra dos russos, mas que conhece, pensa, fala e age em português, fazendo disso a sua profissão”. Desejava casar-se e ter filhos brasileiros. Pede, enfim, que torne de direito o que existe de fato, o apressamento da sua naturalização alargaria a sua vida.

Por tão fortes razões, conseguiu abreviar por apenas um mês o prazo do Ministério da Justiça para virar brasileira. Ela não falava a língua do país de nascimento, mas seus livros falam diversas línguas, inclusive Russo e Ucraniano. A partir daí, passou a exercer com plenitude o seu direito. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e teve dois filhos: Pedro e Paulo Valente.

Ela nunca se desviou de sua brasilidade. Entretanto, o seu alinhamento do cotidiano, a preocupação permanente com os valores espirituais e ainda as suas múltiplas residências no exterior acompanhando o marido devem ter inspirado o crítico Antonio Candido a afirmar que Clarice era uma brasileira a mais não poder. Mesmo assim, era estrangeira na Terra.

Em crônica, ela descreve sua vida dizendo: “Sou ativa nas observações, tenho senso do ridículo, do bom-humor, da ironia, e tomo um partido…” e acrescentou: “Bonita? Nem um pouco, mas mulher”.

 

Diógenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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