UM POUCO DA HISTÓRIA DO BOI E O GADO PÉ-DURO NORDESTINO – Luiz Serra

UM POUCO DA HISTÓRIA DO BOI E O GADO PÉ-DURO NORDESTINO –

O carro de boi alimentou penosamente as tropas militares em Canudos, seja no transportar de pesadas armas e víveres seja como carreta ambulância de campanha. Alvos fáceis dos jagunços de tocaia, movediços, estes ao abrigo da flora exsicada, ramificada e densamente emaranhada, entre coroas-de-cristo, ou avelós da seiva branca venenosa, que afeta seriamente a visão; e macambiras arroxeadas, espetadiças, pode-se considerar um outro exército quase oculto dos conselheiristas. Nas passagens dos contrafortes de elevações, descaíam capoeiras em trechos incinerados interpostos de murundus ocultos pela mata rasteira, entre o cinza e o castanho, semelhando a turfas de forragem. Muito pior os caminhos em picadas com lanços atalhados a fio de facão para passagem da animália e pequenos carros de boi.

Por toda a caatinga baiana o gado resistivo atravessava o tempo no sustento da produção leiteira do sertanejo ou na faina da tração no deslocar de toras de madeira ou pedras, no transportar de víveres ou trastes de famílias inteiras, conduziam a vida no ermo sertão da caatinga. Por todo canto do imenso território interior nordestino havia bois e a história é bem delineada em séculos de conveniência colonial.

Na década de 1850 os bois foram desembarcados em Salvador sob a administração de Tomé de Sousa, governador-geral do Brasil. Os animais povoavam as fazendas e as vertentes e tabuleiros rareados de vegetação da caatinga. O próprio Tomé e seu filho Garcia d´Ávila haviam chegado em uma expedição de seis caravelas aportando em 29 de março de 1549, sob mandado de el-rei de Portugal D. João III.

No retorno das caravelas lusas da Índia, com parada em Salvador, o gado da raça nelore, na espécie zebu, ocupava exíguos espaços das naus, e era predominante nas terras do costado nordestino. Com matizes branco e preto, dessa forma proporcionava grande adaptabilidade ao clima tropical.

Os colonos que aportaram no meado do século XVI passaram a cuidar do cultivo da cana-de-açúcar, da preação de indígenas para mão de obra impositiva; espaços de mata passaram a ser cobertos de canaviais. Dividindo a terra ocupada, o gado, em número crescente, se espalhava e passava a incomodar os colonos. Acabou que Tomé de Sousa baixou determinação para impedir a entrada de bois até a distância de 80 km do litoral, somente aquiescendo para os pastos além disso. Por consequência, em breve tempo, as fazendas com gado se espalharam pela caatinga adentro.

Houve uma espécie de mutação dos bovinos ao longo de três séculos, pelo empecilho da seca e da escassez de vegetação, tornando os bois de baixo tamanho, de aspecto resistivo especial, logo chamados de gado pé-duro. Com a melhora do rebanho, maior tolerância à canícula, proximidade com o São Francisco, passou a ser apreciado como animal de carne macia e exaltado paladar.

Sem mudar de assunto, mas sempre há tempo para apreciar um belo prato com carne macia de gado pé-duro nordestino.

 

Luis SerraProfessor e escritor
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