MAIS UM DIA PARA SER FELIZ – Alberto Rostand Lanverly

MAIS UM DIA PARA SER FELIZ –

Tempos atrás lendo Rubens Paiva, aprendi ser verdade a seguinte máxima: “quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles… talvez imbuído deste ensinamento, adoro sair por aí, as vezes de mãos dadas com os que amo, em outras simplesmente sozinho e em inúmeras oportunidades me vejo a caminhar pelas ruas centrais de nossa capital.

E então vou andando, não somente olhando vitrines ou tranqueiras comercializadas nos camelôs, mas acima de tudo me sentindo um privilegiado, por igualar-me aos milhares de anônimos que lá perambulam em busca de um episódio, por mais simples que possa parecer.

É nestas horas que compreendo que somos pedaços de uma realidade que nos cerca. Nada nos pertence, mas também não é possuído por ninguém, enfrentamos buracos na rua, becos sem saída, cheira-colas dormindo ao relento, obras paralisadas, loucos semáforos funcionando sem nenhum nexo, pontos de ônibus cheios de sofredores, lojas com pouquíssimos clientes, lixo enfeando o local, olhares perdidos em busca de um horizonte que parece não existir.

Quase sempre me detenho em pontos que considero pitorescos para trocar ideias com aqueles que ali se encontram. Geralmente são comerciantes autônomos, que ganham o pão comercializando produtos variados. O engraxate da porta da Igreja do Livramento, as boleiras do oitão da antiga loja Helvética, o vendedor de picolé caicó, da Praça Deodoro, entre tantas outras figuras quase que exóticas, mas que representam a verdadeira face da terra em que vivemos.

Uma dessas personalidades é o dono da banca de revistas da Praça do Montepio, já ha mais de quarenta anos. Eu era meninote e ele ali já se encontrava. Viveu o desenvolvimento da cidade, presenciou fatos inesquecíveis que fizeram a história de Maceió. Ultimamente, me falou sobre o guarda municipal conhecido pelo apelido de “Amigo”, que sempre sorrindo, controlava o trânsito naquela interseção. Era o tempo em que o silvo do apito e o movimento das mãos da autoridade, eram respeitados pelos motoristas. Antes me contou o porquê das prostitutas haverem tomado o logradouro publico próximo ao seu ponto comercial, como referência aos clientes mais variados. Incrível foi a carreira que ele deu, quando no final de manhã, inicio de tarde, de um dia de semana, um oficial da Policia Militar, foi metralhado bem na esquina de seu ponto de venda de gibis, jornais e inúmeros outros itens mais.

Normalmente, converso com pessoas herdeiras de nada, integrantes de famílias de nobreza inexiste, mas que possuem a glória de haverem sido decadentes e hoje são sobreviventes como a ampla maioria dos brasileiros.

Eu poderia afirmar que a quase totalidade dos personagens que tinha o privilégio de conhecer, se consideravam figurantes, um extra nas estórias em que se imiscuíam ao longo de cada dia. Gostam mais do inicio e final do dia, justamente porque compreendem que a esperança é a ultima que morre. Termino da tarde, porque viveram mais um dia, inicio da manhã porque tem mais um dia para ser feliz.

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

 

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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