UM MINUTO DE SILÊNCIO –

“Reaprender a ser sem ter” (Pe. Valtair Lira)

Quantas vezes você não participou ou presenciou algum “minuto” de silêncio sem saber por qual motivo, por quem e, porque o tempo de um minuto é tão angustiante pela demora ou pela rapidez? É também razoável indagar o que efetivamente a prática deste ato opera em benefício do reverenciado.

É um mero costume? Há um desprendimento emocional em favor do ilustre homenageado? O que se ganha e o que se perde nesse “minuto” de silêncio?

Comecemos por entender o que significa “Um minuto de silêncio”: é a expressão para uma fração de tempo para contemplação, oração, reflexão ou gesto de respeito por alguma causa especial. Mais usualmente é utilizada como um chamamento para prestar homenagem a alguém que nos revestiu de luto.

Observar que é bem diferente de “Um minuto de silêncio, por favor!”. Aqui expressa um alerta para guardar silêncio, calar-se.

A duração, mesmo parecendo pouco, pode significar o tempo necessário para um salvamento, um nascimento, um livramento por atraso ou ainda uma fatalidade por uma antecipação. Pode significar a continuidade ou não de uma vida.

Isto posto, frente às inúmeras vidas ceifadas pelo vírus da Covid-19, o tempo de “um minuto de silêncio” e a efetividade de sua função perderam-se no emaranhado dos transtornos e das desarticulações que a perda de um ente querido, nas condições que dita a pandemia, nos toma de surpresa.

Adoeceu hoje, interna-se amanhã, recolhe-se ao jardim divino depois de amanhã. Assim, sem nenhuma “pausa” para velar o corpo, para o último adeus, para aproximar familiares e amigos, para “um minuto de silêncio”.

Encontramos, hoje, famílias atônitas pela perda de algum familiar, sem saber o que fazer daqui para a frente, sem ter mais aquela ou aquele que era o leme na formação emocional ou na condução e manutenção  da família.

Pe. Valtair Lira está sempre nos lembrando que o luto tem o seu tempo de prevalecer, mas não pode ocupar efetivamente a nossa vida (a não ser na graciosa lembrança e agradecimento). É preciso continuar. E para isso, é preciso reaprender a SER sem TER. Sem ter mais a presença física do outro, sem a companhia, sem a cumplicidade dos momentos comuns, sem o amparo emocional, sem o sorriso, sem o compartilhamento da subsistência. Sim, é verdade, porém temos que continuar, mesmo com a fração da responsabilidade acrescida na gestão da vida, nossa e daqueles que ainda dependem de nós.

Não é fácil, não é simples, no entanto, por mais que seja penoso, é preciso não soltar a mão de Deus. Certamente nos veremos diante de tantos minutos de silêncio incomodando nosso espírito, que poderemos ser tomados por uma angústia para os novos cenários que se abrem (se formos otimistas) ou que se fecham (se formos pessimistas).

É um momento que vai requerer muita firmeza. É um novo renascer.

Nada superará o que nos foi dado por Deus na vivência com nosso ente querido, no entanto, tudo será superado pela força que Deus nos proporcionará para prosseguir.

Faço respeitosamente “um minuto de silêncio” por todos aqueles que nos precederam. Também faço “um minuto de silêncio” para compreender o esforço dos que reaprenderão a ‘ser’ sem ‘ter’.

Convido você a fazer também “um minuto de silêncio”.

 

 

 

 

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil, escritor e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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