UM MINICONTO CONTADO –

O relógio da estação marcava exatamente 10h15 quando o trem, ainda envolto pela névoa da manhã fria, diminuindo a sua velocidade na linha 4, estacionou. Poucos passageiros, possivelmente turistas, desceram e caminharam apressadamente em busca de um local mais aquecido.

A minha espera não foi em vão. Entre os que desceram, estava ela. Como sempre, sorridente e confiante em suas atitudes. Percebi, no entanto, que desta vez portava apenas uma pequena bolsa como bagagem, aparentando ser curta a sua estadia.

Um abraço, um beijo de acolhida, um sorriso que espelhava alegria. Poucas palavras, talvez pelo clima de final de inverno, que possivelmente a fazia mais contida.

Dali fomos para uma cafeteria, fora da estação, na mesma quadra onde, em outra época, nos conhecemos fortuitamente em uma das livrarias que, no início da primavera, oferecia palestra e contato com os autores locais. E foi num evento assim que nos aproximamos pelo mesmo interesse em saber como “nasce” um livro.

Da amizade surgida passamos a nos encontrar, com certa frequência, sempre aos finais das tardes, em um dos logradouros de antigos casarões, bem conservados, que dispunham de mesas e cadeiras em suas calçadas para um chopp gelado, acompanhado de azeitonas verdes e diversos tipos de embutidos, entre eles o salame hamburguês, feito artesanalmente com cortes nobres de carne suína e especiarias naturais selecionadas, nosso preferido.

É certo que criamos um vínculo amoroso, que era intenso, porém sempre rompido na chegada do verão, quando ela voltava para a sua cidade e para as suas atividades profissionais. Nesses momentos, nenhum compromisso era assumido um com o outro, pois o seu retorno era tão incerto quanto a minha espera.

Ao cair da tarde, quando o sol espalhava as cores da paleta divina, sempre íamos contemplar o seu espetáculo nos arredores da cidade, onde o horizonte fortemente alaranjado realçava as nossas emoções. Ali nos abraçávamos, sorríamos e nos encantávamos com a natureza que evidenciava o nosso carinho.

Na volta para o pequeno porém aconchegante apartamento, parávamos no calçadão para compartilhar os sentimentos que o pôr do sol deixava em cada um de nós. Quase sempre esse momento era celebrado com uma taça de vinho tinto, Pinot Noir, num brinde efusivo, entrecortado de sedução. Passada a festa de abertura do verão, era chegado o tempo do distanciamento.

Em quase todas as vezes que ela partia, o último aceno era da varanda da estação, que testemunhava a dúvida do reencontro. Sempre assim! Éramos cheios de vida, de paixões e de cumplicidades quando juntos, mas frios, quando distantes.

Desta feita, porém, o observar de sua partida foi da janela do apartamento, cuja vista alcançava a longa calçada até o ponto do bondinho elétrico que fazia o traslado para a estação de trem.

Da janela, busquei o seu adeus e percebi que ele não era definitivo. A cada duas ou três passadas, ela se voltava em minha direção. Porém a dúvida me tomava, se ela buscava apenas uma última visão ou a certeza de que não iria tão longe.

Fechei a cortina para não dissipar a dúvida.

 

 

 

 

 

 

Carlos Alberto Josuá Costa – Engenheiro Civil, escritor e Membro da Academia Macaibense de Letras (josuacosta@uol.com.br)

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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