UM CERTO NATAL –
Manhã luminosa de véspera de Natal. São 07:30. Retomo a rotina diária da ida ao trabalho. Ligo a FM preferida das canções que vestem minhas lembranças. Procuro me investir do espírito natalino. “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso era a primeira a “desfilar na passarela musical”, como anunciava o empolgado locutor. Dois toques no vidro elétrico do carro. Era uma criança saída do presépio mendigo do canteiro da avenida. A face triste denunciava o fome zero. Estendia a mão, sem falar, um gesto de súplica, sob os acordes do “Brasil, meu Brasil brasileiro…”. Relutei. Se der, eu educo um pedinte. Segui. O sinal abriu e o verde me alfinetou que é Natal. Parei mais à frente e acenei. Havia capitulado diante da grandeza do Natal. Auxiliei e prossegui.
Disse para me justificar, ainda, que a tarefa não era só do governo. O comércio da Av. Prudente de Morais ainda parecia adormecido. No ponto de coletivos uma morena de calça jeans, coxas grossas, roubava a cena. Admirei e soltei a frase do meu repertório: pronta para o desperdício! As acácias amarelas ornamentavam o Natal dos meus sonhos. O rádio tocava a Ave Maria em ritmo de samba. Considerei uma heresia. Mas não pude conter a memória fulminante do dia em que meu pai morreu. Reconstituí a cena da saída do féretro da Igreja Matriz de Macaíba, quando o vigário homenageou o devoto de Nossa Senhora da Conceição com a imortal melodia de Gounod. Mais um semáforo, com licença da palavra, do Detran. Aliás, os sinais de trânsito nesta cidade se transformaram em sinais da cruz. Em cada um se instalam os miseráveis que saem de seus guetos de perto e da distância. Crucificados pela fome, quando não pela pedagogia oficial que os ensina a pedir. Cadê aquele coral da TV que solta gritinhos espasmódicos: “fome não, fome não, fome não, fome não!”. Pensei, olhei, não vi ninguém. Logo na véspera do Natal crucificaram o Cristo.
A voz de Isaurinha Garcia rompeu a tristeza cantando o samba sacudido: “E daí, e daí?” Estava perto do destino. Ao lado, a Maternidade Januário Cicco exibia esparramados adornos natalinos. Panos vermelhos como alcatifas desciam de todas as janelas, como se simbolizassem o sangue vertido pelas parturientes no exercício do direito de nascer, refleti comigo mesmo criando alegorias. Do outro lado percebi um enxame de flanelinhas perturbando os pára-brisas. Amanhã serão mais. Depois, farão a revolução pelo usufruto dos carros. Enfim, cheguei ao estacionamento do edifício. Ao saltar, desceu-me a sensação de que havia presenciado dois Natais, em poucos minutos.
(*) Crônica publicada no livro “Inquietudes”
Valério Mesquita – Escritor, mesquita.valerio@gmail.com
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