TRAVESSURAS NO FUNERAL – Alberto Rostand Lanverly

TRAVESSURAS NO FUNERAL –

​Os jornais da cidade anunciaram violento tiroteio, acontecido no interior alagoano onde morreram várias pessoas.
​Posteriormente, Jesualdo ligou para contar que um dos envolvidos no sinistro episódio era seu sobrinho, irmão de Germinia. Recebeu três tiros a queima roupa, no meio da testa, queixo e peito. Morreu antes de cair no chão.

​Viajou rapidamente para o sertão, chegando ao destino, o parente, já se encontrava em visitação, na Catedral da cidade.

​Querendo logo prestar homenagens ao morto, convidou seu afilhado de dez anos, que nunca tinha visto um corpo sem vida, para acompanhá-lo.

​Justo no momento em que Jesualdo e seu companheiro se aproximaram do funeral, uma mosca enorme de cor azulada, zumbiu ao redor do caixão e em voo rasante e certeiro, entrou no nariz do assassinado, para não mais sair. O seu protegido não suportando a visão macabra, abriu o berro a gritar e chorar.

​Sanada a situação, o velório continuou, mais pessoas chegaram para a última homenagem, inclusive algumas menores, que logo começaram a brincar no ambiente, foi quando uma menininha se escondeu perto de uma vela tendo seu cabelo começado a pegar fogo. Germinia, mais do que depressa, pegou a água benta do padre, e jogou na cabeça da criança, debelando o fogaréu

Horas depois, determinado cidadão agiota, sabendo da presença de Germinia na cidade, compareceu à igreja, para cobrar dívida antiga, gerando discussão entre ambos, fato que irritou os familiares presentes, iniciando grande alvoroço, atingindo a urna mortuária, e derrubando parte que sustentava uma de suas extremidades, deixando o cadáver, pendurado por uma banda.

Já no cemitério, quando o coveiro, que tinha a língua presa, pegou a tampa para fechar a gaveta, começou a dizer: – quem tem medo de balata? Cuidado com a balata. Jesualdo ao escutar, teve uma crise de riso e para disfarçar, encostou o rosto no ombro de um parente para que achassem estar ele em prantos.

Mas o pior ainda ia acontecer. Todos se hospedaram na enorme casa da família, composta por muitos aposentos. A noite ele deitou em uma rede, ao lado de outra ocupada por seu afilhado, que ainda continuava assombrado por haver horas antes tinha visto a mosca varejeira entrar narina adentro do finado.

​Por volta da meia noite, luzes apagadas, o menino começou a resmungar alto: – socorro, ele está voltando para me pegar. Jesualdo mais do que depressa tentando acalmá-lo colocou a mão justo em seu rosto, que sentindo o contato, imediatamente lhe mordeu fortemente.

​Agora quem berrava de dor era também Jesualdo, que para fazer o garoto abrir a boca, lhe deu o maior bofete. A cena seguinte, foi interessante: todos os parentes correram, já de pijamas, para a porta do quarto, onde encontraram, sem saber o motivo, ambos sangrando, um nos dedos e outro nos lábios.

​Realmente, foi um funeral movimentado.

 

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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