TORNEI-ME O QUE MAIS TEMIA! – Bárbara Seabra

TORNEI-ME O QUE MAIS TEMIA! –

Quase todos os dias tenho saído de casa antes das 6h da matina. Vou caminhando para a academia, num horário com pouco movimento, o qual me permite rezar meu terço tranquilamente pelas ruas da cidade, sem medo – ou sem tanto medo – da violência atual. Começo uma Ave Maria e cruzo com uma senhora. Ela está sem máscara. Aquilo me incomoda e percebo minha testa franzindo para ela, em sinal de discordância. Peço desculpa à Virgem Maria por este ímpeto de raiva e sigo no caminho. Encontro uma segunda pessoa sem máscara e sinto, mais uma vez, minhas sobrancelhas se encostando.

 – Mãe do Céu, perdoe-me, mas isso me chateia.

Continuo tentando rezar e a cada oração, sigo com um pedido de desculpa dirigido aos céus, pois as pessoas teimam em não usar este paninho protetor diante de seus narizes e bocas.

Uma determinada hora me canso disso e olho séria para cima:

– Senhor, está de brincadeira comigo? Não dá para colocar ao menos uma pessoa usando máscara na minha frente, para eu parar de me irritar?

Parece que não.

Ele – o Pai – tem me testado. E eu tenho falhado repetidas vezes.

Chego em casa aborrecida. Sigo na minha rotina pandêmica: álcool, nenhum sapato entra em casa, banho assim que cruzo a porta do apartamento. Depois de alguns instantes, volto para a cozinha com o cabelo pingando e me jogo com todo o peso na cadeira, olhando seriamente para Flávio:

– Tornei-me o que mais temia: virei fiscal de máscara.

– Fiscal de máscara?

– Isso mesmo.

Explico-lhe minha irritação com as pessoas sem máscaras na rua, ou usando-as sob o queixo, ou sem tampar o nariz. Como me irrita esta negligência, este desrespeito aos demais.

Qual a dificuldade em seguir esta regra? Ninguém está obrigando a ler Os Miseráveis, de Victor Hugo, mesmo você não gostando do estilo. Não é a obrigação de usarmos todos na segunda-feira roupas verdes e no sábado roupas cinzas. Ninguém nos obrigou a cortarmos os cabelos dentro dos 5 ou 6 modelos permitidos por um governo totalitário.

É só uma máscara! Um pedacinho de pano cobrindo narizes e bocas, numa tentativa de nos protegermos e, mais ainda, proteger quem amamos.

Definitivamente, virei fiscal de máscara.

Tenho vontade de perguntar àqueles que estão sem:

– Meus amores, vocês acham mesmo que sua beleza é tão essencial que não podem nos impedir de vermos seus rostinhos completamente? Consigo viver perfeitamente sem ver seus lábios, mas não tenho paz emocional ao ver seus narizes livremente dividindo o mesmo ambiente que eu.

Sim, sou uma privilegiada. Já recebi a primeira dose da vacina. Eu e mais pouco mais de 3 por cento da população brasileira.

Por isso, respeitando e agradecendo este privilégio, sou solidária com os demais que têm medo. Continuo usando as máscaras (todas rosas, para facilitar a diferenciação aqui em casa cada um tem máscaras de uma única cor), continuo usando álcool em tudo o que entra em nosso lar (inclusive nós), continuo mantendo todos os cuidados de higiene que em março de 2020 nos disseram ser importantes.

Então, se me encontrarem na rua com um bloco amarelo e uma caneta na mão, saibam que o Governo leu meu texto e achou conveniente me contratar.

Seria fiscal de máscara contratada com orgulho.

Por amor aos que não conseguem se cuidar pela negligência daqueles que não querem se cuidar…

Por favor, usem máscaras!

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, Professora universitária e Escritora

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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