TONELADAS IN(DI)VISÍVEIS – Flávia Arruda

TONELADAS IN(DI)VISÍVEIS –

Há pesos que não se medem em balanças, mas em silêncios. São toneladas invisíveis que se instalam nos ombros, comprimem o peito e fazem da respiração um exercício de resistência. Invisíveis para quem olha de fora, mas tão palpáveis para quem carrega dentro. E, ao mesmo tempo, divisíveis — porque às vezes conseguimos repartir esse fardo em pequenas fatias de humor, em ironias que nos salvam, em palavras que transformam o caos em crônica. É nesse território ambíguo, entre o riso e a náusea, que habita a solidão existencial. Não é falta de gente, nem ausência de afeto. É a presença de um vazio que insiste em se fazer companhia. E, como todo hóspede inconveniente, ele não avisa quando chega, não diz quando vai embora. Apenas se instala, abre a geladeira da alma e consome nossas reservas de lucidez.

O curioso é que, por fora, tudo parece normal. A vida segue com suas rotinas: filhos pedindo atenção, boletos pedindo pagamento, amigos pedindo presença. E eu, como boa atriz de mim mesma, sigo entregando falas ensaiadas, sorrisos protocolados, abraços que escondem o cansaço. É um teatro diário, onde o figurino é a sobriedade e o cenário é a guerra silenciosa entre o que mostro e o que sinto. Talvez seja isso que mais confunde: como explicar a alguém que a solidão não é ausência de pessoas, mas excesso de pensamentos? Que o buraco negro não está no mundo, mas dentro de mim? Que o corpo, em protesto, inventa sintomas como se fosse um dramaturgo exagerado, criando manchas, formigamentos e dores para dar materialidade ao que não se vê?

E, ainda assim, há uma estranha poesia nesse caos. Porque se tudo fosse leve, talvez não houvesse crônica. O peso, por mais cruel que seja, também é matéria-prima. É dele que nascem as metáforas, as ironias, os risos nervosos que transformam tragédia em literatura. É como se a alma, sufocada, encontrasse na palavra uma válvula de escape. No fundo, viver é isso: carregar toneladas in(di)visíveis e fingir que são apenas sacolas de supermercado. Algumas pesadas, outras rasgando no caminho, mas todas inevitáveis. E, entre uma sacola e outra, a gente ainda encontra espaço para rir, reclamar e seguir. Porque parar não é opção.

O café, por exemplo, é um grande filósofo. Ele começa quente, cheio de promessas, mas logo esfria, indiferente às nossas urgências. É como a vida: sempre nos lembrando que o entusiasmo inicial não dura para sempre. E eu, que já me acostumei a beber café frio, aprendi também a engolir esperanças mornas. O cigarro, por sua vez, é um conselheiro falido. Promete calma, entrega tosse. É como aquele amigo que sempre diz “vai dar certo”, mas nunca explica como.

A corda bamba, ah, essa é minha passarela diária. Equilibrar-se entre o que sinto e o que mostro é um espetáculo digno de circo. O público não vê o suor nas mãos, nem o medo do abismo. Só vê a equilibrista sorrindo, fingindo que o vento não atrapalha. E eu sigo, tropeçando com elegância, porque cair de forma desajeitada seria admitir derrota. Há dias em que me sinto uma bateria desafinada, tocando sozinha em um ensaio sem maestro. O corpo inventa ritmos que não combinam: palpitações, formigamentos, quenturas repentinas. É como se eu fosse uma orquestra de sintomas, e a ansiedade, claro, o maestro tirano que insiste em reger sem partitura.

E, no meio disso tudo, descubro que a ironia é meu colete salva-vidas. Reclamar do purgatório com humor é quase um ato de resistência. Afinal, se não posso controlar as toneladas invisíveis, ao menos posso rir delas. É como dizer: “Sim, estou sufocada, mas veja como consigo transformar o sufoco em metáfora.” É um jeito torto de respirar.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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