Com o fechamento dos teatros na quarentena, cerca de 12 mil profissionais do setor tiveram que parar, só no Rio e em São Paulo.
A estimativa da Associação dos Produtores de Teatro (APTR) é que, nas duas capitais, as temporadas de quase 350 peças tenham sido interrompidas pela pandemia do coronavírus.
Segundo a entidade, pelo menos 70% desses espetáculos não tinham patrocínio – ou seja, suas rendas dependiam exclusivamente da bilheteria.
“Nosso setor vive de aglomeração. A música tem os direitos autorais. O audiovisual ainda pode ser exibido em plataformas de streaming. Já o teatro é feito ao vivo”, diz Eduardo Barata, presidente da APTR.
Como outras, a área tem tentado se reinventar, gerando conteúdo na internet, mas – diferentemente do mercado musical, por exemplo – ainda não encontrou formas de faturar online. “Como monetizar o teatro na internet? Esse é o grande ‘X’ da questão.”
Uma via que já vem sendo testada é o streaming de peças teatrais. Mais ou menos como acontece com músicas e filmes nesse tipo de plataforma, os espetáculos são disponibilizados em vídeo, em um catálogo variado, para assistir onde e quando quiser.
Essa é a ideia do site Espetáculos Online, lançado durante a quarentena. Criado pelo produtor audiovisual Eduardo Chamon, que atua no registro de peças, o serviço é um acervo de filmagens de obras adultas e infantis para assistir na íntegra, sem pagar nada.
“O teatro filmado sempre foi algo para guardar, deixar na prateleira. Todo esse material estava guardado em gavetas. Queremos abrir essas gavetas”, explica Eduardo.
A página ainda não gera receita. Num modelo colaborativo, as gravações das peças são enviadas pelos próprios produtores e passam por uma curadoria.
Eduardo diz que, em relação à experiência de assistir a um filme, por exemplo, o teatro filmado oferece “a sensação de estar numa plateia”. “Tem a emoção, a gargalhada. No momento em que estamos vivendo, estamos aceitando nos colocar dentro de uma plateia virtual.”
Outra alternativa foi encontrada pelo ator Ivam Cabral. Ele estava prestes a viajar em um tour pela Europa com seu monólogo, “Todos os sonhos do mundo”, quando a pandemia se intensificou.
Decidiu, então, estrear uma temporada virtual, com apresentações ao vivo pelas redes sociais. “Meu trabalho é exceção. Por acaso, eu tinha um solo, e não uma peça com elenco de dez pessoas, que precisa de uma equipe. Nesses outros casos, vamos ter que organizar e planejar pra fazer dar certo”, diz.
“Vai ser necessário encontrar um jeito de cobrar ingressso [pelas apresentações online]. Acho que isso logo vai acontecer porque vai demorar bastante para que a gente possa se encontrar de novo.”
De fato, a expectativa no setor é que a rotina se normalize só no ano que vem. Por isso, a APTR já estuda formas de rentabilizar os serviços de teatro pela internet.
“Nós não temos a estrutura que os [cantores] sertanejos têm. Mas estamos pensando nisso. Talvez, um projeto com atores em suas casas”, diz o presidente da associação.
“Mas ainda estamos estudando como isso atingiria nossa cadeia produtiva de forma geral – técnicos, autores, artistas.”
Enquanto a solução não aparece, a entidade tenta arrecadar doações para ajudar profissionais do setor que perderam suas rendas. “Estamos falando de pessoas que estão sem dinheiro para comer”, diz Eduardo.
“Ainda estamos tentando entender quanto tempo isso vai durar. Boa parte do público de teatro é de idosos [grupo de risco da Covid-19. Quanto tempo essas pessoas vão demorar para voltar aos teatros?”, questiona Chamon.
Barata compara o impacto da pandemia no setor a uma “terceira guerra mundial”, mas é otimista. “O teatro nunca vai acabar. Ele passou por todas as crises mundiais e se manteve em pé. É claro que há uma questão econômica, mas a arte e a cultura prevalecerão.”
Fonte: G1
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