TÁ DANADO DE BOM –
Meu marido diz que eu vivo em muitas frentes, e não é que ele está certo!
Outro dia cheguei em casa por volta das 11 da noite, após ter passado o dia inteirinho, em pleno domingo, num desses plantões pedagógicos de fim de semana. Daí, quando eu me sentei, meu corpo ficou tremendo sozinho, parecia que estava sambando em plena Marquês de Sapucaí, era um farnizin da gota serena, aí eu caí na gargalhada, porque se não risse, chorava.
Pois bem, olha minhas frentes: mudança de dois filhos ao mesmo tempo, mais a mudança da sogra… troço pra todo lado, caixas engolindo objetos que já passaram do seu prazo de vida, que deviam ser descartados, mas, por falta de tempo, vão ficando nas acomodações dos inservíveis, isso para não falar nos atropelos que uma só mudança causa, quem dirá três ao mesmo tempo. Como se não bastasse, no meio das caixas e de todo esse burburinho, tenho que fazer pesquisa de preço, presidir comissão de licitação e dar conta de mais dois projetos pedagógicos, que me custarão, no mínimo, dois domingos sendo consumida por jornadas exaustivas de trabalho e responsabilidades, isso, sendo otimista.
Aí acaba um expediente e começa o outro, na verdade, faz tempo que não sei quando um termina e o outro começa. A impressão que tenho é que não tenho a menor ideia de quando isso começou, se já estou próxima de findar, ou se ainda engatinho ouvindo aquela música da Cidade Negra sobre a longa caminhada até chegar aqui, sem nem cochilar no caminho.
E antes que pensem que aqui é o fim, deixa eu te dizer que ainda tem chão, assopre a poeira da cara e vamos para a cervejeira, aquela que está no meu Hall-Bar. Dizem (eu mesma disse — risos) que é autoatendimento, é sim. Ela se vende sozinha. Agora, para repor, limpar, contar estoque, conferir caixa e agora instalar câmera, adivinha quem tem que ir? Euzinha. Tá danado de bom ser funcionária da própria geladeira, que não me paga hora extra.
E, tudo isso, porque eu não paro quieta, inventei até de vender comida no condomínio, além da cerveja. Semana passada foi lasanha, fiz dez, gourmet, bem caprichada, o bom é que vendeu tudo. E a cabeça já fica: o que invento no próximo fim de semana? É por isso que não durmo direito. Deito o corpo, mas a cabeça continua trabalhando, fazendo lista enquanto o corpo samba.
Reforma, então, nem se fala, a princípio, era só a cozinha. Só. Hoje já virou piso da casa e banheiro. Aqui em casa nada fica só no “só”. Começa num canto e toma tudo.
No meio disso tudo, eu ainda tento ver uma série enigmática pra desligar um pouco, daquelas que tenham o poder de me fazer pensar em outras coisas, que não seja preço, caixa, concurso, licitação… (Adoro thriller psicológico de assassino em série).
Quando me dou conta que sou mãe, esposa, filha, nora, irmã, dona de casa, presidente de comissão, empreendedora e ainda quero ser escritora, tudo junto, misturado, numa correria danada, me pego às 2h15 da manhã escrevendo essa crônica para cumprir com o prazo do editor, que era dois dias atrás.
Mas, quer saber? No meio desse caos todo, eu até organizo tudo bem direitinho, eu acho que tenho dado conta: a mudança vai sair, os plantões pedagógicos vão rodar, a cervejeira não vai esvaziar, a lasanha acabou, e essa crônica aqui saiu, meio atravessada, mas saiu.
Então é isso. Tá danado de bom. Tá cansativo, o corpo treme/samba, mas tá danado de bom ver tudo acontecendo.
Agora me deixa ir, que já tenho outra frente me esperando, quem sabe vencer a insônia e dar um cochilinho.
TÁ DANADO DE BOM!
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crônicasflaviaarruda@gmail.com
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