SETENTA ANOS ATRÁS –

Setenta anos atrás, época de minha adolescência, foi também o tempo de medicamentos como a pomada Minancora, as pílulas de Vida de Dr. Ross, o sabonete Eucalol, o Elixir Paregórico, o Biotônico Fontoura, a Emulsão de Scott, a Violeta Genciana, o Regulador Xavier, o Entero-Vioformo e o Melhoral.

Naqueles idos florescia a indústria automobilística no país e nos encantávamos com a perua Vemaguete, o Fusca, o Simca Chambord, o Gordini, o Dauphine, o JK, o Jeep, a Rural e o Aero Willys. Existia também o Romi-Isetta – primeiro veículo de três rodas fabricado no Brasil.

Época em que São Paulo era, literalmente, a Terra da Garoa e, Copacabana, a Princesinha do Mar. Tempo em que mulheres se enterneciam com rádionovelas, homens acompanhavam o Repórter Esso e, ambos, se divertiam ouvindo programas humorísticos como o PRK-30, na Rádio Mayrink Veiga e Balança Mas Não Cai, na Rádio Nacional.

Anos do nascimento do biquíni, do surgimento da Bossa Nova e da televisão no Brasil. Período em que jantar no lar, era momento obrigatório de reunião familiar. Quando existia seriedade no estudar. Desconhecia-se viciado em drogas. Cedia-se o lugar para idosos nos ônibus.

No tempo em que, na sala de estar, ligava-se o único televisor da casa para assistir Amilton Fernandes e Guy Loup, nos papeis de Albertinho Limonta e Isabel Cristina, atuando na novela O Direito de Nascer, na TV Tupi.

 Período de costumes bem diferentes, tais como namorar no cinema na matinée do domingo, comendo pipoca e chupando drops, esperando o escurinho da sessão acontecer para roubar aquele beijo proibido. Tempo em que virgindade era virtude e não vergonha, tatuagem era coisa de marginal e, quem, somente usava piercing, era índio botocudo.

Um tempo, acreditem, em que, na Semana Santa, dávamos postas de bacalhau de esmola; casamento era para sempre; as certezas pareciam durar a vida toda; as avós eram umas velhinhas e não os mulherões de hoje; quando, até para morrer, morria-se devagar como se estivéssemos atravessando a vida em câmera lenta.

Sei que pequena é a parte da vida que realmente vivemos, pois o restante não é vida, mas, somente tempo. E que nada é tão verdadeiro e incontestável – segundo Sêneca -, como o fato de que a vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazer é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo. Que o destino perdeu o controle sobre o passado, e ninguém pode recuperá-lo.

Mesmo sem poder retroceder ao passado, sinto falta da época em que ‘formação de quadrilha’ não passava de entusiasmo juvenil na organização de dança folclórica, nas comemorações do São João. ‘Movimentação social’ era reunião de adolescentes em noitada dançante; e, ‘Clube dos Cafajestes’ era apenas um bloco de playboys mimados, e não aglomerados de maus brasileiros arruinando a economia da nação e desmoralizando os seus valores, impunemente.

Sem auxílios de cinto de segurança, air-bag, celular, computador, internet e de psicoterapia, sobrevivi. Pertenci à geração que privilegiou o respeitou, o charme e o romantismo. Vivi uma época em que se preservou a natureza, valorizou a amizade, e não teve receio de ser feliz.

Querer repudiar o presente não passa de completa insensatez. Insistir em reeditar os anos dourados da existência, preocupando-se em tecer loas de exaltação ao passado, é pura alienação. Mas, bem que deixa saudade a adolescência de setenta anos atrás, com toda caretice, dificuldades e restrições a que tivemos direito.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
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