Rinaldo Barros
Peço licença para abordar a situação atual da política brasileira, sob um ângulo pouco considerado: uma abordagem com base em nossa história recente, considerando a evolução das condições objetivas de nossa sociedade. Este enfoque foi introduzido pelo artigo do professor André Singer (USP), publicado na revista “Novos Estudos”, do CEBRAP. Acompanhe a linha de raciocínio.

O PT historicamente formou-se de três forças: 1) o sindicalismo; 2) bases da Igreja (Frei Beto, Hélio Bicudo e outros) e; 3) os deserdados dos diversos grupos das esquerdas que se juntaram no PT; e o partido se construiu sob a bandeira de que a luta de classes deveria sempre estar no primeiro plano de todas as lutas.

Ora, a “luta de classes” é, por definição, um conflito, uma ameaça à ordem estabelecida.

Ou seja, no princípio, para o PT, o conflito era positivo. A missão do PT ameaçava a ordem vigente. O eleitorado tradicional do PT era de classe média, com bom nível de instrução.

Em 2002, com a “Carta ao Povo Brasileiro”, algo mudou ideologicamente. E em 2006, consolidou-se um realinhamento da base eleitoral: uma nova camada da base da pirâmide social passou a apoiar Lula, dando-lhe o diploma de Presidente, pela segunda vez. O que ocorreu?

De certa forma, o Lulismo atual pode ser considerado um fenômeno (um golpe no interior das instituições) semelhante ao ocorrido com Luis Bonaparte, em 1848, e analisado por Marx, utilizando o instrumental teórico da ciência da história, em sua obra “18 Brumário”. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Não tenho dúvidas de que estamos diante de um fenômeno novo na história do patropi.

Lula, contrapondo-se ao seu próprio partido, e em que pese ter permitido o aparelhamento do Estado, a corrução como método de governo (o “mensalão” e o “petrolão”), e ainda confundir o conceito de “Estado forte” com Estado grande e gastador; manteve e ampliou um conjunto de políticas compensatórias que promoveu a mudança social de parte significativa da população.

Essa fração do eleitorado foi conquistada eleitoralmente por dois motivos: 1) em razão de sua incapacidade de organização, esse segmento (subproletariado), não se interessa por nenhum conflito que ameace a ordem vigente, manter a ordem é muito importante para essas pessoas; 2) Lula manteve alguns programas de política compensatória (bolsa-família, aumento do salário mínimo, redução do custo da cesta básica, apoio à agricultura familiar, regularização de terras quilombolas, etc), os quais realmente transformaram a vida cotidiana de milhares de pessoas, todas – repito – da base da pirâmide social.

Por outro lado, esse mesmo segmento, por motivos de sobrevivência, apóia a intervenção do Estado na economia. Politicamente, não é conservador; mas, culturalmente é preconceituoso e tradicional. Antes do Lula, votou sempre com a direita. A maioria do povão quer a mudança dentro da ordem.

Curiosamente, a partir dessa aprovação extraordinária do Lulismo, constata-se uma mudança na qualidade do voto do brasileiro e uma perda do discurso de que “votar no PT é uma ameaça à ordem estabelecida”. Lula não mais representa a desordem, Lula pertence ou representa o establishmen.

Há quem defenda que o Lulismo despolitiza o eleitorado e até mesmo quem o considere uma espécie de neoperonismo ou neopopulismo.

Cá no meu canto, fico assuntando que o Lulismo é uma mistura de pigmentos da direita e da esquerda.

Ao tempo em que consegue certa transformação, com ascensão social (o que poderia ser considerado uma ação de esquerda), conquista a confiança das elites e dos militares, mantendo a ordem, sem acirrar conflitos e protege o lucro das grandes empresas e, principalmente, o lucro astronômico do sistema financeiro.

O Lulismo, a meu ver, embaralha as cartas ideológicas de uma forma inusitada.

Pergunto eu: 1) para as eleições de 2016, nas quais Lula não será candidato, as pessoas que mudaram de condição social, via Bolsa-família, se manterão fiéis ao PT ou ao Lulismo? Ou escolherão quem demonstrar mais competência e experiência política para gerir os destinos dos municípios?

Lula, com carisma e aprovação popular em queda, ainda tem peso muito grande no PT, mas a ex-guerrilheira Dilma Roussef não é petista histórica (Dilma é brizolista), não é unanimidade entre os militantes petistas. Há grande probabilidade de Dilma ser cristianizada pelo PT, com orientação de Lula, e abandonada à própria sorte. O criador, como se fora Macunaíma – para se salvar, pode se opor à sua criatura. É possível?

Por fim, já ouvi teses – não comprovadas, de que estamos vivenciando um limiar de um novo tempo político no Brasil, e que há um acordo secretíssimo entre a cúpula do PMDB e a do PT para continuar a administrar, agora em conjunto, o futuro da sociedade brasileira. Um governo – de coalizão – pós-Lula. Será?
A conclusão é privilégio do caro leitor.

Rinaldo BarrosProfessorrb@opiniaopolitica.com
As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores
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