Não bastasse, por si só, a força do verso célebre de Castro Alves – ‘A praça é do povo como o céu é do Condor’ – toda a história da liberdade se fez nas ruas e não nos gabinetes. São muitos e valiosos os estudos da sociologia urbana e da antropologia cultural sobre a casa e a rua, os maiores e mais consagrados espaços das manifestações populares. Portanto, é tolice olhar como novidade a presença das multidões nas ruas, o grito rouco ou estridente. Importa saber das razões populares.

No Brasil, o primeiro olhar moderno sobre a casa e a rua saiu em meados da década de oitenta, precisamente em 1985, e mereceu exatamente esse título – A Casa e a Rua. É um ensaio do antropólogo Roberto Da Matta que chega aos olhos brasileiros na edição Brasiliense e seis anos depois do então e já consagrado ‘Carnavais, Malandros e Heróis’ que ele lançou pela editora Zahar em 1979. É a síntese do seu doutorado em Harvard, uma das mais célebres universidades do mundo.

Com as jornadas de junho de 2013 o tema saltou de circunspectos textos universitários para as páginas dos jornais e revistas. O que parecia, no primeiro momento, um simples modismo vindo do ‘Occupy’, o movimento que começou na África, depois Tunísia, Egito, Líbia, varreu as praças e avenidas de países da Europa – Espanha, Grécia e Londres, até pisar a Wall Street, nos EUA, sem contar com inesperadas manifestações em Moscou, surpreendendo de  vez as autoridades soviéticas.

A rigor, e apesar do espanto diante das multidões marchando nas ruas do país, não havia novidade do ponto de vista histórico. Irado ou exausto, e mesmo diante do esforço das autoridades em pintar as manifestações com os tons da criminalização, o povo apenas manifestava a indignação, e desta vez com uma eloquência nunca vista. Os políticos, com medo, aprovaram o que povo exigia nos cartazes e com muita rapidez desistiram de cortar o poder fiscalizador do Ministério Público.

Esquecido de que foi a rua o seu grande campo de luta e seu território de crescimento, o PT parece destreinado para o debate que ainda ontem, há 25 anos, ensinava ao Brasil. E procura encontrar culpados de erros absurdos praticados pelo feio imbróglio que foi misturar os interesses do partido com os deveres do governo. Festejou sua vitória como se os números e a geografia saídos das urnas não exigissem uma reflexão, e transformou em louros os espinhos de um grande combate.

Não importa o atletismo idiota de contrapor uma passeata das panelas vazias que os petistas fizeram ontem contra a passeata das panelas cheias que seus adversários anunciam para o domingo. Antes desse espetáculo histriônico, e muito mais significante, há de ser o sentimento de quem ouve hoje a presidente Dilma Rousseff sem lhe conceder o crédito que ungiu não só o discurso de Lula, mas as palavras e os gestos daquele que foi – e talvez ainda seja – o maior líder popular do Brasil.

Vicente Serejo – Jornalista e escritor

Ponto de Vista

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