REMINISCÊNCIAS II –

Entrei no Atheneu em 1942 e foi um mundo novo que se abriu. Fiquei “dono” do meu tempo e decidia o que fazer. Os professores ensinavam cada um suas matérias, você assistia essas aulas se quisessem, e tinham total liberdade. Claro, você sabia suas obrigações e a grande maioria comparecia as aulas.

Os professores de meu tempo, com algumas exceções, eram excelentes. Alguns eram tão bons que suas aulas eram um entretenimento. A maioria desses professores participaram da fundação da universidade. Quando terminei o curso Científico, não existia universidade em Natal. Você tinha que ir para outra cidade para fazer o vestibular e entrar na universidade. Recife era onde a grande maioria ia. Por conveniência, alguns iam para outras cidades. Eu, por exemplo, fiz direito em Maceió. Terminei em 1954.

Enquanto fazia o Científico no Atheneu fiz Contabilidade no Colégio Marista.  Ótimos professores. Esse curso foi depois equiparado ao bacharelato. Foi uma ótima experiência, onde fiz novos amigos, alguns para sempre. O colégio ainda era dirigido por irmãos Maristas, muito bem organizado e disciplinado. Alguns dos professores eram maristas. Alguns leigos, entre os quais o de Português, Contabilidade e Estatística.

Continuava trabalhando com meu pai, que organizou uma construtora, com seus amigos Amaro Mesquita e Joaquim Victor de Holanda, em 1942. Construíram praticamente todos os quartéis do Exército, com exceção do 16º R.I., e um número razoável dos alojamentos dos americanos em Parnamirim. Trabalhei na nova empresa, J. Cesar, como responsável pelas folhas de pagamentos dos operários. Eram pagos todo os sábados à tarde, paravam de trabalhar o suficiente para receber o salário e voltavam ao trabalho. Por conta da urgência da guerra, trabalhava-se 24 horas por dia. As folhas eram no final de semana, preparavam-se envelopes com os nomes do operários e horas trabalhadas, e valor em dinheiro. A grande dificuldade era conseguir dinheiro trocado. Tínhamos algumas empresas amigas que juntavam dinheiro trocado e alguns bancos que nos ajudavam. Mas era sempre uma dor de cabeça. Vocês podem imaginar as dificuldades. Só na construção do quartel do batalhão antiaéreo tínhamos cerca de 800 operários. Hoje, grandemente modificado (as construções da época eram reduzidas ao essencial), é o Comando da Brigada.

Em razão das nossas atividades para os americanos em Parnamirim, recebi um cartão de identificação que me dava acesso à Base a qualquer hora do dia e a qualquer lugar. Isso me garantiu o direito de comprar no PX, uma espécie de supermercado, onde você comprava de comida à roupa, calçados, cigarros, refrigerantes, um sortimento grande, tudo à preços subsidiados. Comprei muita coisa lá, de comida a roupas. Uma compra de que não me esqueço foi de um mocassin.  Ainda não existiam por aqui e eu ansioso para comprar um, mas foi difícil encontrar o meu tamanho. Finalmente, encontrei um, uma cor amarela horrível, mas a vontade era tanta que comprei. No outro dia, fui para o Atheneu com ele. A reação dos meus colegas foi “onde você arranjou esse sapatinho de veado”. Hoje seria bullying. Caí na risada e mandei pintar o bicho. Ficou pior do que era, mas usei até se acabar.

A idade não brinca. Cansei. Volto com a continuação proximamente.

 

 

 

 

 

Dalton Mello de Andrade – Escritor, ex-secretário da Educação do RN, dandrade@dmandrade.com.br

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